PIEDADE

 No final da década de 80, eu ia periodicamente ao Rio para me encontrar com meu orientador de doutorado.  Como eu não tinha dinheiro para ir de carro, ia e voltava no mesmo dia de ônibus.

Eu pegava o ônibus na rodoviária de São José dos Campos por volta da meia-noite e chegava na rodoviária Novo Rio às 6:00.  De lá pegava outro ônibus e ia para o Leme onde morava meu orientador.  Ele fazia a cortesia de me receber em sua casa para conversarmos sobre o avanço do trabalho de doutoramento.

Logo após a hora do almoço eu já estava novamente na rodoviária Novo Rio para voltar para casa.  Pegava o primeiro ônibus que fosse para São Paulo e saltava no meio do caminho, para chegar em casa.

Numa dessas voltas, aconteceu um episódio que me marcou.  Eu estava na fila da companhia de ônibus para São Paulo para comprar a passagem e fui abordado por um homem.  Ele estava vestido de forma bem humilde e falava com voz de tristeza pedindo se eu poderia completar sua passagem. 

Olhei para ele mas ele não olhava para mim.  Permanecia com os olhos fitos no chão.  Em sua mão havia um maço de notas miúdas que ele fazia questão de mostrar para justificar que já tinha algum dinheiro e só precisaria de um complemento.

Perguntei para ele para onde ele iria e a resposta foi São Paulo.  Ou seja, ele iria pegar o mesmo ônibus que eu.  Agi de forma tão rápida e nem dei tempo de ele reagir.  Tomei todo o dinheiro que estava em sua mão e lhe disse: pode deixar que eu compro sua passagem.  Ele não falou nada.

Eu já estava acostumado com essa conversa de pedir para completar alguma coisa que nunca se completa.  Eu queria ajudar sem ser enganado.  Comprei a passagem e dei-lhe na mão.  Ele agradeceu e se afastou.

Desci rumo à plataforma de onde sairia o ônibus.  Cerca de 20 minutos eu estava dentro do mesmo.  Como eu havia memorizado o número do assento que comprei para o pedinte, fui até o local para ver se ele havia adentrado ao veículo.  Havia uma mulher sentada no lugar.  Então eu lhe perguntei como ela havia adquirido aquela passagem.  Ela me disse que havia comprado de alguém que estava ao lado do guichê da companhia de ônibus.  Ou seja, o sujeito era, de fato, um velhaco dando golpe de contar com a piedade alheia para se dar bem.  Por mais que eu tivesse agido com prudência para evitar dar dinheiro a algum malandro, ele havia me passado para trás.

Esse episódio trouxe reflexões que me acompanham até hoje.  Eu não fiquei com raiva de ter sido enganado.  Eu sabia que havia uma possibilidade daquilo acontecer.  Tentei encontrar um caminho diferente para que aquele malandro não ficasse tirando dinheiro das pessoas que, de bom coração, tentam ajudar.  Mas ele, exatamente porque era malandro, soube encontra um jeito de pegar o dinheiro.

Esse tipo de coisa, que continua acontecendo nos dias de hoje, prospera porque ninguém está disposto a reclamar e exigir justiça pois o valor perdido é muito pequeno para cada um.  O que realmente se perde não é dinheiro é a vontade de ajudar, endurecendo o coração.  Ao desconfiarmos de que todo aquele que pede é um malandro (e a maioria é mesmo), podemos deixar de ajudar quem realmente está precisando. 

Percebi que não podia deixar que a maldade dos outros pudesse entrar no meu coração através de desconfiança e matasse o desejo de ajudar os outros.  Desde então, quando alguém me pede dinheiro para comida eu me disponho a ir à padaria ou restaurante mais próximo para comprar uma marmita.  Já perdi a conta de quantas vezes parei para conversar com gente que pede (há novos tipos de golpe como exemplo de pedir fraldas para o filho), tento mostrar que aquele caminho lhes levará ao infortúnio.  Sei que ainda sou passado para trás muitas vezes.  Mas também tenho certeza de ter abençoado alguns.

Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.  Provérbios 4:23

Comentários

  1. Obrigada pelo exemplo e o incentivo a ter um coração segundo Deus quer para nós.

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  2. Verdade! Já aconteceu comigo em SJC, a pessoa me ganhou na conversa que queria voltar pra cidade dele no interior de MG, perguntei o valor da passagem e dei o valor pra ele! No dia passado uns dias, passando de carro no centro de SJC, está o bonitão andando pela cidade, não fiquei com raiva não, cheguei até rir da situação!

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  3. Hoje mesmo vi uma reportagem antiga de pessoas que também se passam por milionários para extorquir dinheiro de pessoas de bem prometendo altos lucros em investimentos fictícios. Da mesma forma pessoas que se passam por mendigos para o mesmo fim : conseguir dinheiro fácil. Sendo assim só mesmo orando e pedindo a Deusbque nos dê discernimento e sabedoria para viver neste mundo cada vez mais perigoso e tenebroso!

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