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ONIOMANIA

  Em 1987 estávamos em plena campanha de preparação para lançamento do terceiro protótipo do veículo SONDA 4.   O governo americano já nos havia comunicado que não forneceriam mais a plataforma inercial MIDAS, que era utilizada para controlar aquele foguete.   Como nós só tínhamos mais uma unidade disponível para voo e outra em manutenção, houve uma preocupação natural com o andamento do projeto.   Primeiramente porque, se aquela unidade que dispúnhamos desse algum problema, não teríamos condições de fazer aquele lançamento.   Também havia a questão de como seria o próximo lançamento que estava previsto para o ano seguinte (que só aconteceu em 1989). Foi quando me lembrei que, o grupo em que eu trabalhava no CTEx antes de vir para o IAE, havia comprado uma plataforma idêntica a que utilizávamos no SONDA 4.   Não me recordo qual foi a justificativa, na época, para a aquisição desse equipamento.   Mas sabia que ele não havia sido sequer ligado para tes...

FEBRE OBSCURA

  Logo após minha formatura, o pai de um colega de turma e amigo, teve um problema de saúde que o levou a uma internação hospitalar.   Ele ocupava um cargo de funcionário público relevante e havia surgido uma oportunidade de ser promovido ao mais alto escalão de sua carreira e ir para Brasília.   O processo de escolha durou um certo tempo, tempo esse de grande expectativa por parte dele. Aconteceu que ele não foi escolhido.   Como normalmente acontece, foi uma escolha política e isso o deixou em grande estresse, sentindo-se mais do que derrotado, mas traído.   A consequência foi um tanto óbvia, começou a se sentir mal com todo aquele estresse.   Muita gente, nessas horas, morre de ataque cardíaco ou derrame.   O caso dele foi um pouco menos intenso, mas sério o suficiente para ficar internado por uma semana. O curioso foi o diagnóstico liberado por ocasião de sua alta: febre obscura de origem virótica não especificada. Ora, tal sentença não diz ...

O PROSCRITO

Quando estava para me aposentar, recebi como colaborador em minha equipe um oficial recém formado pelo ITA. Vou chamá-lo de Ulisses em homenagem à Odisséia.  Excelente engenheiro, logo se destacou pelo interesse e qualidade no trabalho. Passado o prazo regulamentar ele conseguiu um mestrado, na área espacial, em uma universidade de renome na Inglaterra, e lá foi ele.  No ano seguinte, eu estava trabalhando na Alemanha, no DLR (agência espacial alemã), quando Ulisses entrou em contato comigo.  Ele ficou sabendo que eu estava lá e propôs visitar-me. Ele e a esposa passaram um fim de semana conosco e ele me disse o motivo da visita.  Havia uma regra dentro da universidade inglesa que os alunos deveriam fazer suas dissertações (tese) de mestrado em alguma instituição externa à mesma, ainda dentro da Europa.  Isso levaria uma grande troca de informações e inovação. Então eu lhe mostrei o que era feito no DLR e o apresentei a pessoas que estariam interessadas ne...

LOUCOS E MENTIROSOS

Recentemente, durante uma reunião em uma ICT (Instituição de Ciência e Tecnologia) para discussão de uma proposta de um grande projeto de pesquisa, escutei uma frase que motivou essa postagem. A pessoa que a declarou, estava liderando a organização dessa proposta.  Durante a discussão do que podia ou não ser feito, ele me saiu com essa: “quando se pede o impossível, você acaba se cercando de 2 grupos – os loucos e os mentirosos ”.  Rimos muito e percebi que acabara de ouvir uma verdade inquietante. Vou acrescentar um personagem à essa pequena alegoria.  O proponente seria o sonhador.  Aquele que gostaria de ver algo acontecer mesmo que fosse impossível.  Então ele é rodeado de alguns que compram a sua ideia, mesmo que impossível.  Os loucos - eles estarão dispostos a despender todo esforço e diligência para realizá-la.  Esse grupo, via de regra, tem dificuldade de percepção da realidade em que estão inseridos.  Após um longo desgaste e decepçõ...

PASTA BRANCA

Recentemente, minha empresa precisava de um certo certificado emitido por um órgão público que prefiro não identificar.   O pedido é feito pela internet.   Era preciso pagar uma certa taxa para a qual foi emitido um boleto.   Até aí tudo bem quando começam os problemas.   O tal boleto só poderia ser pago através do Banco do Brasil.   Ou seja, uma empresa que não tivesse conta no Banco do Brasil só poderia pagá-lo se tirasse o dinheiro vivo do caixa e fosse em uma agência do BB para efetuar o pagamento.   Isso, em tempo de PIX não faz nenhum sentido. Como se não bastasse a dificuldade para pagamento da taxa, a entrega de documentos teria que ser presencial e em papel.   Outra coisa que não faz sentido em tempos de transferência de documentos em formato digital e assinatura também digital (inclusive pelo site oficial do governo). Quando meu sócio se dirigiu a São Paulo e foi até a tal repartição para dar entrada na documentação, a atendente conferi...

ALZHEIMER INSTITUCIONAL

  Certamente uma das doenças mais conhecidas (e temidas) da atualidade é o mal de Alzheimer.   A doença de Alzheimer é um transtorno neurodegenerativo progressivo que afeta principalmente a memória, o raciocínio e a capacidade de realizar atividades diárias. De uma forma bastante objetiva, com o tempo, a pessoa acaba por esquecer quem é.   Não lembra de onde veio, o que fez e para onde vai. Recentemente eu estava conversando com alguns profissionais à respeito de uma certa instituição de pesquisa que já fazia um bom tempo que não produzia nada de relevante.   De repente, ouvi a seguinte frase: parece que não sabem de onde vieram nem para onde vão!! Pronto, foi suficiente para meu diagnóstico:   Alzheimer Institucional .   A comparação era muito pertinente.   Assim como os pacientes portadores de Alzheimer vão paulatinamente esquecendo-se do que foram e fizeram e já não sabem o que fazer no presente, muito menos no futuro, assim são determinadas i...

QUASE

  Quando eu ainda estava na faculdade, tínhamos um pequeno sítio em uma cidade próxima ao Rio de Janeiro, chamada Itaguaí.   Nele havíamos construído uma pequena piscina que era abastecida com água de poço.   Na beira da piscina havia um pequeno lugar com água onde se poderia limpar os pés antes de entrar.   Isso porque o caminho até a piscina não era pavimentado e sim de terra. Num certo dia eu estava mergulhado na piscina, tentando avaliar quanto tempo eu poderia ficar submerso.   Quando ouvi uma gritaria do lado de fora.   Me levantei rapidamente e vi minha mãe de pé fora da piscina e meu pai fazendo seu habitual escândalo. Perguntei: o que aconteceu ?   A resposta foi imediata: sua mãe quase quebrou a cabeça !!   Olhei para minha mãe, que estava um tanto constrangida com a gritaria, e perguntei novamente: o que aconteceu mamãe ?   Ela respondeu: eu pus o pé aqui (no local próprio) para lavar meu pé e ele escorregou.   Não havia ...