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CURRÍCULO

  No final da década de 80, quando ainda se contratava os funcionários como CLTistas, eu publiquei um anúncio no jornal (era assim que se oferecia emprego na época) para trabalhar na subdivisão de controle do IAE.   No anúncio, eu dizia a qualificação e experiência do profissional que estava procurando.   Especificamente, mencionei a simulação de sistemas dinâmicos.   Recebi vários currículos, como resposta.   Um deles me chamou a atenção pois descrevia exatamente a atividade que eu gostaria que o candidato viesse a executar como funcionário.   Assim, marquei uma entrevista com ele (vou chamá-lo de Pármenas).   Pármenas morava em São Paulo e veio acompanhado da namorada.   Pedi que ela esperasse do lado de fora da minha sala onde eu faria a entrevista (não queria nenhum tipo de interferência).   Comecei a entrevista elogiando seu currículo e pedi que ele descrevesse as atividades que tanto me chamaram a atenção.   Para minha surpresa...

FUNÇÃO MAÇANETA

  Ao longo da minha carreira, nunca sobrevivi apenas com meu salário de pesquisador.   Sempre foi necessário procurar alguma renda complementar.   Via de regra, essa complementação vinha através de ministrar aulas, fossem eventuais ou como contratado em alguma universidade ou ministrando algum curso específico (caso da EMBRATEL e Rede Ferroviária Federal).   Algumas vezes, entretanto, eu fui convidado para dar algum tipo de consultoria. Quando me mudei para São José dos Campos (1985), após alguns anos, comecei a ser chamado para dar algum tipo de consultoria técnica para empresas da área de defesa.   Nas primeiras vezes, a execução do trabalho era feita através da entrega de relatórios sem que eu tivesse que ir na empresa. A primeira vez que fui contratado para ir até uma grande empresa, me deixou bastante orgulhoso e cheio de expectativa.   Como seria o ambiente de uma empresa que produzia armamento de alta tecnologia? Estranhamente, o que me chamou ...

CONFEDERAÇÃO INTERGALÁTICA

Desde as épocas no IAE eu enfrentei uma situação recorrente: ter que preencher uma papelada enorme e desnecessária.   Toda vez que precisava fazer qualquer solicitação eu deveria dizer, não apenas o meu nome, mas meu endereço, data de aniversário, RG e CPF entre outras informações já disponíveis.   Sempre fiquei perplexo como a burocracia não se importa de gastar o tempo dos outros por simples falta de organização ou porque acaba se tornando um tipo de transtorno mental de precisar que alguém preencha alguma coisa. Se alguém ainda não percebeu essa realidade, observe a maioria dos caixas de supermercado.   Diante da total automação dos processos e controle de dados por computador, diante do pagamento feito por PIX e aplicativos em celular, as pobres coitadas estão sempre anotando em um bloquinho todos os pagamentos que lhe são feitos.   A burocracia não se contenta com novos métodos mas também mantém os antigos. Recentemente, tive contato com uma novidade que me ...

SELEÇÃO ÀS AVESSAS

  Em 1997, o CTA organizou um curso de gerência de projetos de alto nível.   Trouxe professores da USP para um curso de um ano que, diga-se de passagem, foi muito bom.   Tive a oportunidade de cursar a primeira turma.   O objetivo era formar as lideranças do futuro.   Entre meus colegas de turma havia diversos militares.   Um deles veio a ser o diretor do IAE. No ano seguinte, a segunda turma já estava em funcionamento quando eu precisei falar com um indivíduo que estava fazendo o tal curso.   Fui até a sala onde se realizavam as aulas e espiei pela porta para tentar identificar a pessoa com quem eu precisava falar. Tive, então, a oportunidade de observar quem era o corpo discente daquele momento.   Para minha surpresa, a maioria era constituída dos funcionários mais inúteis e refratários ao trabalho.   Aqueles que não se sabia o que fazer com eles, depois de diversas tentativas para lhes extrair algum tipo de produtividade. Naquele tem...

PRINCÍPIO DE PETER

  Organizando todo o material que tenho acumulado nesses 47 anos de profissão, me deparei com 2 pedidos de transferência que fiz do IAE para o INPE em 1991 e 1992.   Não foram aceitos e dou graças a Deus por isso.   Ele cumpriu seus propósitos ao não permitir a mudança.   Mas, isso me trouxe à mente os motivos que me levaram a essa atitude tão radical. Em 1991 estávamos vivendo uma grande reorganização institucional devido à fusão de 2 institutos: o IPD (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento) e o então IAE (Instituto de Atividades Espaciais).   Essa fusão trouxe muitos problemas ao desenvolvimento do VLS (vide postagem O Jênio).   Deve ter atrasado o  primeiro lançamento do VLS, em anos. Foi durante esse período conturbado que assumiu a chefia da divisão o major Clarisbadeu (nome fictício).   Clarisbadeu tinha uma ótima formação, inclusive com doutorado em uma famosa instituição americana.   Sua área de atuação se enquadrava perfeitamen...

OPORTUNIDADE

  Era final da década de 90 (não lembro exatamente o ano), eu estava trabalhando em minha sala quando adentrou o major Lupicínio (nome fictício).   Seria a primeira vez (e última) que ele entrava em minha sala.   Eu o conhecia fazia alguns anos pois trabalhávamos na mesma divisão. Muito educadamente, Lupicínio solicitou minha atenção pois ele precisava que eu o ajudasse dando-lhe um parecer favorável para o plano de doutoramento que pretendia submeter para as esferas superiores.   Esse doutoramento seria feito no exterior. Até aí nada demais.   Com certa frequência eu era (e ainda sou) chamado a dar algum parecer sobre propostas de desenvolvimento de algum assunto ligado à minha área de expertise.   No caso de Lupicínio, chamava a atenção o fato de que ele já estava na divisão há mais de 10 anos e só agora estaria interessado em um doutoramento.   Eu conhecia sua família pois almoçávamos no mesmo restaurante e suas filhas já eram crescidas. ...

PIEDADE

  No final da década de 80, eu ia periodicamente ao Rio para me encontrar com meu orientador de doutorado.   Como eu não tinha dinheiro para ir de carro, ia e voltava no mesmo dia de ônibus. Eu pegava o ônibus na rodoviária de São José dos Campos por volta da meia-noite e chegava na rodoviária Novo Rio às 6:00.  De lá pegava outro ônibus e ia para o Leme onde morava meu orientador.  Ele fazia a cortesia de me receber em sua casa para conversarmos sobre o avanço do trabalho de doutoramento. Logo após a hora do almoço eu já estava novamente na rodoviária Novo Rio para voltar para casa.  Pegava o primeiro ônibus que fosse para São Paulo e saltava no meio do caminho, para chegar em casa. Numa dessas voltas, aconteceu um episódio que me marcou.  Eu estava na fila da companhia de ônibus para São Paulo para comprar a passagem e fui abordado por um homem.  Ele estava vestido de forma bem humilde e falava com voz de tristeza pedindo se eu poderia completa...