CURRÍCULO

 No final da década de 80, quando ainda se contratava os funcionários como CLTistas, eu publiquei um anúncio no jornal (era assim que se oferecia emprego na época) para trabalhar na subdivisão de controle do IAE.  No anúncio, eu dizia a qualificação e experiência do profissional que estava procurando.  Especificamente, mencionei a simulação de sistemas dinâmicos. 

Recebi vários currículos, como resposta.  Um deles me chamou a atenção pois descrevia exatamente a atividade que eu gostaria que o candidato viesse a executar como funcionário.  Assim, marquei uma entrevista com ele (vou chamá-lo de Pármenas).  Pármenas morava em São Paulo e veio acompanhado da namorada.  Pedi que ela esperasse do lado de fora da minha sala onde eu faria a entrevista (não queria nenhum tipo de interferência). 

Comecei a entrevista elogiando seu currículo e pedi que ele descrevesse as atividades que tanto me chamaram a atenção.  Para minha surpresa, ele não havia feito nada naquele tema.  Tratava-se do título do projeto de iniciação científica que um professor havia proposto e sido aprovado mas que ele não havia sequer começado.  Ou seja, o currículo estava cheio de mentiras (hoje seria chamado fake news). 

Eu fiquei furioso com Pármenas e o repreendi.  Ele havia me enganado com um currículo falso.  Eu lhe disse: “Você achava que não seria percebido ?  Que o que você afirma saber não seria avaliado?  Você tem a coragem de trazer sua namorada junto pra depois passar vergonha?”

Nunca mais tive notícias de Pármenas (na verdade, nem lembro do nome dele).  Mas o episódio me mostrou algumas coisas muito preocupantes.  Eu já estava acostumado com o fato de que não se deve perguntar a um pedreiro se ele sabe fazer uma determinada tarefa.  Via de regra ele irá responder que sabe e depois você terá de pagar outro profissional para desfazer as besteiras feitas pelo primeiro.  Entretanto, isso se aplicava a pedreiros diaristas e gente de baixa formação.  Essa era a segunda vez que eu via engenheiros fazendo algo semelhante (a primeira foi quando eu ainda trabalhava no Exército).  Pessoas que apresentam em seus currículos habilidades e experiência que não têm. 

Isso me lembra uma marchinha de carnaval da minha infância “estou lambuzando selo, se colar colou”.  São pessoas que irão contando mentiras para ver se alguém acredita nelas.  É claro que, posteriormente, a verdade irá aparecer, mas até lá já auferiram alguma vantagem. 

Que tipo de carreira uma pessoa assim espera construir?  Que credibilidade espera ter, ao começar um trabalho baseado na mentira ?  Mesmo que seja no desespero de conseguir um emprego, está se andando sobre areia movediça.  É claro que sempre há casos em que outras habilidades podem ser reveladas.  Entretanto, além de ser exceção e não regra, sempre ficará a memória de um mal começo.

A honestidade é sempre a melhor política, pois as empresas sérias valorizam a transparência e a ética.  Em vez de mentir, considere destacar suas verdadeiras habilidades e experiências, mesmo que elas não sejam tão impressionantes quanto você gostaria.  Isso pode levar a oportunidades mais adequadas e sustentáveis no futuro.

Porque não há nada oculto que não venha a ser revelado, e nada escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz.   Lucas 8:17

Comentários

  1. Acredito que todos nós já nos deparamos com Parmenas. No meu caso eu tinha acabado de chegar do Canadá e por mera coincidência estive hospedada num pequeno lugarejo onde minha filha estudava. Pra minha surpresa o candidato apresentou um currículo com experiência numa empresa exatamente daquela região. Achei curioso e resolvi questionar como era a rotina dele lá para ir a empresa , qual estrada pegava, onde morava, como era a empresa, etc. Foi então que vieram as respostas … a empresa e todo resto em relação a minha pergunta eram completamente impossíveis de existirem, sem falar que muitos pontos ele dizia não se lembrar. Óbvio que nem prossegui para a parte técnica.

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