FUNÇÃO MAÇANETA
Ao longo da minha carreira, nunca sobrevivi apenas com meu salário de pesquisador. Sempre foi necessário procurar alguma renda complementar. Via de regra, essa complementação vinha através de ministrar aulas, fossem eventuais ou como contratado em alguma universidade ou ministrando algum curso específico (caso da EMBRATEL e Rede Ferroviária Federal). Algumas vezes, entretanto, eu fui convidado para dar algum tipo de consultoria.
Quando me mudei para São José dos
Campos (1985), após alguns anos, comecei a ser chamado para dar algum tipo de
consultoria técnica para empresas da área de defesa. Nas primeiras vezes, a execução do trabalho
era feita através da entrega de relatórios sem que eu tivesse que ir na
empresa.
A primeira vez que fui contratado
para ir até uma grande empresa, me deixou bastante orgulhoso e cheio de
expectativa. Como seria o ambiente de
uma empresa que produzia armamento de alta tecnologia?
Estranhamente, o que me chamou
a atenção ao adentrar no ambiente de engenharia da tal empresa (havia dezenas
de pessoas trabalhando lá) foi identificar alguns conhecidos que já haviam se
aposentado. Não que reencontrar aquelas
pessoas fosse demérito de qualquer forma.
A pergunta que me veio imediatamente à mente foi: o que aquele cara está
fazendo aqui ?
É que eu sabia quem eram, no
sentido do que haviam (ou não haviam) feito.
Tecnicamente, não tinham nenhuma expertise que pudesse ser utilizada naquele
ambiente / projeto. Sinceramente, aquilo
me deixou desconfortável.
Assim que pude conversei com
um amigo sobre essa minha percepção e ele me deu a resposta. Eles estão ali, não para fazer alguma coisa,
mas para abrir portas. Então,
jocosamente, concluí eu: função maçaneta. São pessoas que são contratadas não pelo que sabem
fazer, mas pelos contatos que têm.
Não estou falando de
marketing, que toda empresa precisa ter para anunciar seus produtos e serviços. Nem mesmo do profissional lobista, cuja
função é defender os interesses de seu contratante buscando a assinatura de contratos.
Maçaneta é aquele indivíduo
cujo predicado é conhecer contatos. Ele não precisa saber nada além de com quem falar. Alguém
a quem possa pedir ou cobrar algum obséquio ou indicar a direção de onde
obtê-lo. Algo muito próximo ao tráfico
de influência.
Depois daquele momento comecei
a perceber que, quase todas as empresas daquele ramo, possuem seus
maçanetas. Até mesmo minha empresa tem
recebido um certo assédio de pessoas que me procuram dizendo que conhecem
pessoas que poderiam se interessar por nossos produtos.
A impressão que me fica não é
que sejam meros atravessadores, mas também sejam tão ativos em abrir como em
fechar portas. Em outras palavras, se
não forem contratados para apresentar o potencial cliente tentam impedir que o
mesmo saiba da existência de nosso produto.
Ou seja, são prejudiciais. Algum
tipo de parasita que tenta destruir o organismo que o repele.
Penso também que talvez algumas
pessoas nunca pensaram que poderiam ser utilizados no papel de maçaneta mas foram
convencidos habilmente a exercer esse papel aviltante.
Seja como for, é mais uma figura
que precisamos eliminar de nossos empreendimentos. Não há nenhum problema em termos um grande networking
mas que nossa função seja de realização concreta, de agregamento de valor. De construir casas e não apenas abrir
portas.
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