MEGALOMANIA

Em 2007 tive a oportunidade de ir ao Paquistão para participar de uma conferência.  Era primeira (e última) vez que estive por aquelas bandas e estava bastante curioso com tudo ao meu redor.  Dentro da carro que foi me pegar no aeroporto, comecei a conversar com o motorista (muito simpático por sinal) sobre como era a vida em seu país.  Em algum momento eu lhe perguntei qual era a população do Paquistão.  Ele respondeu de uma forma curiosa e disse: “xi! aqui tem muita gente.  Mais de 8 bilhões de habitantes.”  Me espantei com a resposta e pedi para ele repetir para ter certeza de ter entendido.  Então repliquei: “deve ter alguma coisa errada com essa sua conta pois o mundo inteiro não chega a 7 bilhões de habitantes (naquela época).”  Ele ficou bastante pensativo, como se estivesse surpreso com a possibilidade de estar errado.  Ele estava muito errado.  A população de lá não chegava a 170 milhões de habitantes.

Esse episódio me veio à mente quando, recentemente, visitei a cidade de Petrópolis.  Fazia perto de 50 anos desde a minha última visita e, evidentemente, esperava muitas mudanças.  Me hospedei em um hotel bem no centro da cidade e perguntei para o recepcionista qual era a população da cidade.  Ele me respondeu, com toda segurança: 2 milhões de habitantes!  Dessa vez eu não falei nada.  Sabia que devia ser um exagero pois, embora a cidade seja espalhada, eu não via prédios altos que justificasse tamanha densidade demográfica.

Fui para o quarto e procurei na internet e vi que não chega a 280 mil habitantes.  Então fiquei pensando de onde vem essa megalomania de exagerar a população à qual você pertence ?  Não é apenas um simples exagero para valorizar o pedaço.  Multiplicar por 10 ou por quase 50 (no caso do Paquistão) passa do absurdo.  Seria algum tipo de doença?  Será que o megalômano demográfico não percebe o quanto está errado e que está passando por ridículo?  Ou será que pensa que poderia enganar aos mais incautos e ficar bem na fita ?

Deve haver alguma explicação psicológica que faz com que o indivíduo se sinta mais importante ou mais poderoso por pertencer a um grupo (cidade ou país) que seja grande, muito grande.  O que acho curioso é que não tenho a percepção de que o tamanho de uma comunidade possa dar algum tipo de valor especial.  Uma cidade grande tem grandes problemas.  Países de grande população também enfrentam grandes dificuldades.  O Paquistão é um país pobre com a população que tem.  Imagine multiplicado por 50.  Já a Suíça tem população menor que a cidade de São Paulo.  Duvido que alguém queira majorar seu número de habitantes.

Definitivamente, não consigo entender que exagerar a população à qual pertenço possa me trazer algum tipo de superioridade.  Ainda mais um exagero que transcende a ignorância.  Talvez aqueles indivíduos não tivessem a percepção do que realmente é importante para uma sociedade.  Já vi países se orgulharem da qualidade de sua comida, da elegância das suas roupas ou da beleza de suas mulheres.  Em todos os casos, certamente, há verdades e exageros.  Mas nenhuma megalomania.

Isso talvez, de forma mais primitiva, inconscientemente, se remeta às guerras ancestrais em que um reino mais numeroso poderia se impor a um de menor porte.  Mas nem isso teria mais sentido atualmente, com as guerras que estamos vendo que são embates entre máquinas. 

Acho que seria bem interessante se começássemos a exagerar em virtudes.  Somos a sociedade mais justa, mais ética, mais empática, mais pacífica, mais trabalhadora, etc.  Nesse caso quanto maior a população maiores bençãos, abençoadores e abençoados. 

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