O NARIZ

 Em 1974 eu estava cursando o primeiro ano de graduação no IME.  Era período integral de estudo somado à instrução militar.  Ambos tinham a presença controlada de forma muito rígida.  Quem estourasse em faltas (que eram pouquíssimas) corria o risco de ser desligado.  Fazia bastante sentido, pois éramos pagos pra estudar e não faríamos mais do que obrigação em estar presente.

Numa certa tarde, eu deveria fazer um trabalho conjunto com um colega de turma (conhecido desde o cursinho pré-vestibular) que morava próximo.  Na chegada à sua casa, cometi a besteira de passar correndo para pegar o elevador sem ver que havia uma parede de vidro na frente.  Resultado: arrebentei a cara na tal parede.  O impacto foi tão forte que o barulho chamou a atenção do porteiro.

Cheguei na casa do meu amigo com o nariz sangrando pelos poros da pele, tal a hemorragia resultante.  É claro que não consegui fazer o trabalho.  A mãe dele me forneceu gelo para aliviar a dor e o inchaço.  Voltei pra casa preocupado com o fato de que no dia seguinte eu teria educação física e não me via em condições de fazê-lo.

Logo pela manhã, ao chegar no IME, procurei o médico que atendia os alunos, o Dr. Circus (nome fictício).  Ao adentrar no que seria o consultório, dei de cara com um indivíduo de péssima aparência sentado em sua mesa com uma postura de quem está na mesa de um bar.

Ele olhou pra mim, que estava com o rosto inchado e com uma enorme área triangular roxa com o nariz no cento, e disse secamente:  o que foi ?  Eu me sentei em frente à mesa e contei a história do dia anterior.  Ele continuou me olhando com a mesma cara de paisagem e demorou um bom tempo em silêncio pra então dizer: o que você quer que eu faça ?

A resposta descabida (normalmente quem faz essa pergunta é o paciente) me pegou de surpresa e, então, respondi: ué doutor, sei lá, o senhor poderia pedir uma chapa (de raio X) pra ver se tem alguma coisa quebrada ?  A tréplica foi ainda pior quando Circus falou:  pra quê ? não se engessa nariz !!

Depois dessa, tive a impressão que eu estava diante um homem completamente alienado que nem sabia o que estava fazendo ali e quis sair o quanto antes.  O senhor pode me dar um atestado para a educação física ? perguntei.  Ele me deu um atestado de liberação da educação física para aquela semana e fui embora.  Nunca mais o procurei.

A situação foi ao mesmo tempo hilária e absurda.  O tal médico não se mexeu da mesa.  Não me examinou.  Não perguntou se estava doendo ou se havia algum outro sintoma.  Também nada receitou - nem analgésico ou anti-inflamatório.  Não fez nenhuma recomendação.  Era de se duvidar se era realmente médico.  Não é à toa que diziam que ele seria ginecologista (uma piada já que era médico para uma instituição que, na época, era exclusivamente para homens).

Esse episódio faz mas de meio século e continua acontecendo Brasil afora.  Servidores públicos que simplesmente ignoram o porquê estão em determinados funções para a qual são pagos.  Não as realizam ou se fazem é com negligência e irresponsabilidade.  São servidores que servem a si mesmo.

Me lembro de uma frase de um antigo colega de trabalho que dizia que todo chefe sabe o CPF e o RG de todo funcionário mal elemento.  Entretanto, não agem contra essa prática tão danosa para a sociedade.  Eu tenho certeza de que as atitudes do Dr. Circus já teriam sido diversas vezes informadas para seus superiores, que nada fizeram.

Quanto a mim acabei ficando com o nariz um tanto torto depois do incidente.  Não sei o que poderia ter sido feito na época.  Se seria possível ou não algum tipo de intervenção.  Só sei que, sem nenhum exame para examinar o estado interno do meu rosto, o que podia ter sido feito (bolsa de gelo e água com sal) foi.

Do hábito da resignação nasce sempre a falta de interesse, a negligência, a indolência, a inatividade, e quase a imobilidade.  Giacomo Leopardi

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