AMPLO DIREITO
Depois que a bobinadeira foi instalada era preciso ter alguém especializado para operá-la. Foi nessa época que apareceu um técnico, de outra divisão, que vou chamar de Carabino. Ele me procurou dizendo que gostaria de trabalhar na minha subdivisão pois não estava satisfeito em seu local de trabalho. Acrescentou também que todos ficavam fumando maconha lá.
Embora eu estive
escolado com esse tipo de transferência – ninguém transfere bons funcionários –
ele tinha algo do meu interesse: sabia operar máquinas CNC. Como era exatamente esse tipo de habilidade
necessária para operar a bobinadeira, eu o recebi em meu grupo. Claro que, primeiramente, o alertei que
esperava dele uma conduta de ética elevada e comportamento condizente.
Passadas algumas
semanas, Carabino entra na minha sala, extremamente nervoso, e me conta que sua
esposa havia sido internada em pronto socorro psiquiátrico e que a assistente
social do instituto não o havia apoiado nisso.
Ele estava revoltado com isso e pretendia ir embora da instituição. Carabino estava visivelmente transtornado. Então, me levantei da cadeira e lhe dei um
abraço, procurando acalmá-lo.
Logo após o almoço ele
retorna à minha sala e me mostra um monte de um palmo de notas de cem reais (ele
havia retirado todo o dinheiro de sua conta).
Me disse que estava indo embora para sua terra de origem, e que nunca
mais voltaria. Eu lhe disse que pensasse
com calma no que estava fazendo. Então,
ele saiu.
No dia seguinte, quando
ele não apareceu para trabalhar, encaminhei uma comunicação formal à administração
do instituto sobre o fato de Carabino ter abandonado o trabalho. O pessoal da administração ficou um tanto
inseguro sobre o que fazer até que surgiu um comunicado feito por Carabino
através do sindicato, dizendo que estava sendo perseguido por ser pobre, negro
e nordestino. Abriu-se, então, um PAD
procedimento administrativo disciplinar.
A acusação de Carabino
não tinha nenhum fundamento. Ele não
estava sendo perseguido. Ele é de pele
bronzeada (não parda) cabelos lisos e olhos verdes. Morava em casa própria de 3 andares. A única verdade dita é ser nordestino. Nunca entendi qual o objetivo daquela
atitude.
Ele ficou 3 meses sem
aparecer na instituição. Durante esse
período, o instituto lhe encaminhou 2 cartas registradas solicitando seu
retorno. Carabino respondeu as duas
cartas dizendo que poderiam demiti-lo pois ele não retornaria. Em vista disso, o PAD concluiu por sua demissão
a bem do serviço público.
No dia exato dia em que
se completou 90 dias de abandono ele se apresenta, dizendo que estava passando
fome pois seu salário havia sido cortado.
Também disse que não havia feito nada errado. O chefe do RH do instituto, então, comunicou
o fato ao CTA, solicitando instruções.
Antes ele havia consultado o CJU (Consultoria Jurídica da União) que lhe
disse que não deveria aceitar o ingresso de Carabino. Entretanto, para surpresa de todos, o
assessor jurídico da organização disse que ele deveria ser aceito de volta,
pois não houve amplo direito de defesa.
Fiquei plasmo com isso. Defesa de
que ? Todas as ações tiveram iniciativa
dele, incluindo mentir para se fazer de vítima.
Além do mais, havia suas cartas que solicitavam sua própria demissão.
Me recusei recebe-lo. Eu estaria disposto a
ouvi-lo se começasse com um pedido de desculpas. Porém, se ele achava que não tinha feito nada
de errado, então que fosse procurar um lugar onde isso fosse válido. Carabino foi transferido para outro lugar,
totalmente fora de sua especialização, mas bem longe.
Posteriormente, ficamos
sabendo que não era a primeira vez que ele fazia isso. Ou seja, ele sabia muito bem jogar com as
regras – por isso seu retorno no exato 90 dias.
Ele conhecia perfeitamente seu amplo direito. O que ele não queria era os deveres e a responsabilidades concernentes a esses direitos.
Quantos Carabinos existem
por aí, fazendo jus ao seu amplo direito sem produzir um mínimo que justifique
seu salário. Em algum momento o juízo virá.
Você pode enganar uma
pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar todas
por todo o tempo. ― Abraham Lincoln
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