FAÇA O QUE EU DIGO

Muito embora o projeto VLS estivesse muito bem estruturado em termos de documentação, de vez em quando surgiam críticas pela falta de documentação do mesmo (vide postagem DENÚNCIA).  Num certo momento do início da década de 90, mais uma vez chegou ao comando uma reclamação de que o VLS não estava sendo documentado.  Na verdade, havia uma dificuldade de se conseguir que os engenheiros que estavam se dedicando, com afinco, ao desenvolvimento de uma tecnologia tão especial parassem o que estavam fazendo para escrever relatórios.  Precisávamos sim de gente dedicada somente a esse mister, mas não tínhamos.

Foi quando chamaram um “especialista” na área chamado Pazalix (nome fictício), advindo de um setor administrativo do CTA.  Pazalix trazia consigo a reputação de ser um entendido em gerenciamento de projetos.  Na verdade, posteriormente, ele publicou um livro na área.  Fiquei conhecendo-o já na primeira reunião.  

Ele foi bastante assertivo ao nos dizer que não estávamos desenvolvendo corretamente o processo de documentação.  Criticou ferozmente o principal instrumento que tínhamos de registrar nossas atividades – que chamávamos de memotec (memorando técnico).  Quando ele começou a descrever o que deveríamos fazer, eu o interrompi dizendo: “todos nós aqui sabemos que precisamos de ajuda para elaborar uma boa documentação e eu gostaria de saber como o senhor vai nos ajudar a escrevê-la.”  Pazalix pareceu um tanto assustado quando respondeu: “Não! Eu não vim aqui produzir nenhuma documentação e sim dizer como se faz.”  Eu repliquei: “mas nós sabemos o quanto é necessária a documentação.  Se não está sendo feita é porque não temos força de trabalho para fazê-la.  A ajuda que precisamos é de gente que faça a documentação”.  Pazalix, então, deixou bem claro que não era sua intenção fazer nada nesse sentido.  A reunião terminou inconclusiva e nem sei se houve mais alguma.

Naquele momento eu me lembrei de uma frase que meu pai costumava dizer (e eu detestava): faça o que eu digo mas não faça o que eu faço.  Sei bem que o contexto era outro, porém o que estava sendo posto era de alguém que estava pronto a dizer o que devia ser feito sem ajudar em nada para que acontecesse alguma coisa.  Estava mais próximo das palavras de Jesus sobre os fariseus: “Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los;” (Mateus 23:4)

Como se não bastasse o tempo perdido naquela reunião e da expectativa frustrada de que iria haver alguma ajuda (não houve nenhuma), ficamos sabendo posteriormente que Pazalix nunca havia gerenciado nenhum projeto.  Ele estava defendendo conceitos que só conhecia no papel, nunca os havia posto, de fato, em prática.  Sua função era avaliar o que os outros faziam mas ele mesmo não tomava parte naquilo. Era como um professor de poesia que nunca havia escrito nenhuma. 

De certa forma, foi melhor que ele tivesse se retirado logo.  Provavelmente, iria atrapalhar muito e ajudar muito pouco (se é que ajudaria em alguma coisa).  O projeto continuou, mesmo que mal documentado (segundo as más línguas) até que pudemos colocá-lo na rampa e lançá-lo em 1997.

Durante minha carreira, encontrei diversos Pazalix.  Pessoas que estão sempre prontas a achar defeito no que os outros estão fazendo, mas não contribuem em nada para resolver os problemas.  Via de regra, essas mesmas pessoas nunca estiveram no lugar daquelas que estão criticando.  Se tivessem estado, certamente, agiriam de maneira muito diferente – mais construtivamente.

O mal maior da hipocrisia não é simplesmente aconselhar o que tu simplesmente não fazes. Mas acreditar que ainda és verdadeiramente feliz assim!  Augusto Branco

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