DE VOLTA PARA O FUTURO
Como gerente do Projeto SIA eu deveria prestar satisfações ao setor do DCTA que fazia o acompanhamento dos projetos institucionais. Isso era feito trimestralmente através de um documento chamado FAP – folha de acompanhamento de projeto. De fato, era um documento bem simples e assertivo. Constava os objetivos do projeto naquele período (previamente estipulados quando da proposta do projeto) e qual o percentual de execução havia sido alcançado. Também havia oportunidade de descrever os óbices, as dificuldades encontradas para a não realização de algum tipo de atividade.
Me parecia bastante
razoável esse tipo de acompanhamento.
Afinal, além das FAPs, nada impedia que os responsáveis pelo setor
viessem visitar nossas instalações e ver com seus próprios olhos o progresso ou
não de determinado projeto. Também poderiam,
a qualquer hora, solicitar uma apresentação mais detalhada das atividades.
Entretanto, não sei
dizer o porquê, havia insatisfação dentro daquele setor. Se com a forma com que era conduzido o
acompanhamento dos projetos ou com o próprio andamento em si, talvez os 2. Até que, de repente, alguém apareceu com uma
solução mágica. Encontraram um software
de acompanhamento de projetos chamado Planilha Horus.
Foi anunciado com muito
alarde a chegada dessa varinha de condão que, num passe de mágica, organizaria
e resolveria os problemas de gerenciamento de alto nível de uma grande
instituição de pesquisa.
Tivemos uma primeira
reunião com todos os gerentes de projeto.
Fomos orientados para trazermos um certo dever de casa pronto: um resumo
da situação do projeto. Esse pedido já
era estranho pois as FAPs já faziam isso.
Ao pedir esse resumo, dava a entender ou que muitos gerentes não preparavam
suas FAPs ou que o próprio setor de acompanhamento de projetos não as lia.
A reunião foi uma
confusão total e uma grande perda de tempo.
Resolvi não participar da seguinte, quando então, seria apresentada a Planilha
Horus. Um outro gerente, conhecido meu,
relatou o que havia sido discutido. Ele
mesmo achou que iria gastar um tempo enorme para preencher a tal planilha e ela
não acrescentaria nada ao que já estava sendo feito.
Baixei o aplicativo em
meu computador para tentar entender o que eu deveria fazer (que já não tivesse
feito antes). Para minha surpresa, pasmem,
a planilha deveria ser preenchida começando 5 anos antes da presente data e com
informações mensais. Liguei imediatamente
para o setor encarregado de orientar o preenchimento da tal planilha e
questionei que todas as informações FAPs eram trimestrais e que não havia como
fazer um “planejamento” do passado mensal.
Fui orientado a, simplesmente, repetir as informações 3 vezes.
Como se não bastasse
tamanha perda de tempo, o que mais me indignou foi uma planilha de planejamento
começar do passado (5 anos antes). Então,
eu disse para o meu interlocutor: “essa planilha deveria se chamar de volta
para o futuro”. Já que ela se propunha
ajudar o futuro voltando ao passado e sem acrescentar nenhuma informação
nova. Em outras palavras era
completamente inútil. Ao fim da ligação,
eu já havia tomado a decisão de não preencher aquela coisa. Eu tinha a consciência tranquila de que vinha
dando todas as informações necessárias ao acompanhamento do meu projeto e não
iria perder meu tempo com uma loucura.
Passada algumas semanas,
recebi uma ligação do setor administrativo que encaminhava as FAPs dizendo que
eu era o único que não havia preenchido a planilha Horus e que o pessoal de Brasília
(não sei quem) estava cobrando. Eu
respondi secamente: “não preenchi e não vou preencher, pois considero uma total
perda de tempo. Se não gostarem da minha
atitude, meu cargo está à disposição.
Podem escolher outro gerente.”
Minha interlocutora, então, me pediu que eu preparasse uma resposta por
e-mail com os meus motivos. Gostei da ideia
e caprichei nos argumentos. Nunca recebi
a réplica. No ano seguinte a planilha
Horus foi abandonada e voltaram as boas e velhas FAPs.
Esse episódio é mais um
exemplo de atitudes descabidas tomadas por pessoas que recebem um encargo sem o
devido preparo para executá-lo. Me lembra
aquela propagando de uma máquina que faz ginástica por você. No caso, acharam que um software pudesse
substituir o gerenciamento real.
Na época não havia IA, talvez funcionasse melhor.
Isto nos faz refletir sobre a contraproducente decisão de introdução de novas ferramentas ou sistemas sem uma análise cuidadosa do seu valor agregado e da sua necessidade real, sem considerar que mudanças devem ser feitas com base em critérios racionais e na busca por melhorias concretas, e não como uma tentativa de resolver problemas inexistentes ou mal compreendidos.
ResponderExcluirEsta crítica muito bem exemplificada neste texto, pode ser vista como um alerta para qualquer organização: as ferramentas de gestão devem facilitar o trabalho e não complicá-lo, e as mudanças devem ser baseadas em evidências claras de que trarão benefícios concretos.