DIFERENTE

 Conforme mencionado na postagem “Pré-Defesa”, para conclusão do meu doutoramento, havia uma exigência de publicação de pelo menos 2 artigos internacionais.  Eu já havia publicado um em 1986 mas não fui apresentá-lo, pois era em Lund na Suécia.  Eu não tinha condições financeiras para bancar a viagem e por não ser ainda doutor não contava com o suporte da agências de fomento.

Foi uma grata surpresa quando em 1987 o IAE financiou minha ida a um Colóquio no México para apresentar meu artigo, que havia sido aprovado.  A viagem seria de 3 dias (duração do Colóquio) e lá fui eu para minha primeira apresentação no exterior.  Sendo apenas 3 dias e eu ainda tinha a ideia estúpida de viajar de terno, não haveria necessidade de levar mais que uma mala de mão. 

A viajem de ida foi sem problemas.  Já na viagem de volta alguns eventos me marcaram.  O Colóquio terminou em uma quarta-feira e devido ao retorno no meio da semana, não havia voo direto da Cidade do México para o Brasil.  Então, precisava voltar via Miami.  Acontece que eu não tinha visto de entrada nos Estados Unidos.  Isso me fez ser tratado com um prisioneiro.  Logo que desembarquei em Miami fui conduzido por um guarda para uma sala (junto com outros na mesma situação) onde fiquei trancado até a hora de fazer o check-in.  Fui então escoltado até o balcão da Varig para o Check-in e, posteriormente, até dentro do avião.  Foi bastante constrangedor, mas encarei aquilo com naturalidade pois afinal deveria respeitar as regras do país do outros. 

Desde aquela época, o voo vindo de Miami era muito visado pelos fiscais da receita federal.  Como eu não tinha bagagem embarcada achei que seria uma chegada muito tranquila no Brasil, ledo engano.  Eu trazia comigo além da minha bagagem de mão, uma bolsa de couro que eu havia comprado para minha esposa.  Ela sempre gostou de bolsas de couro e aquela tinha motivos Astecas em relevo.  Achei muito diferenciado e a trouxe na mão para que não fosse danificada.

Quando passei pela alfândega uma fiscal se dirigiu a mim e me perguntou:  onde está sua bagagem ?  Respondi: Não tenho nenhuma outra bagagem, somente essa que está nas minhas mãos.  A fiscal solicitou imediatamente que eu fosse inspecionado.  Quando digo eu estou falando do meu corpo.  Fui apalpado além de passarem em mim algum tipo de sensor.  Só não trouxeram um cão farejador.  A fiscal abriu minha mala de mão e não viu nada além de roupa suja.  Então começou a apalpar a bolsa de couro e fez menção de cortá-la para ver se tinha algo no forro. 

Nessa hora eu saí do silencio e perguntei, um tanto indignado: “O que a senhora está procurando ?  drogas ?  Não nada aqui, somente um souvenir que comprei para minha esposa e a senhora pretende destruir.”  Ela se convenceu e me liberou.  Ela não se deu ao trabalho de repor a bolsa que havia esvaziado.  Enquanto eu arrumava minha bolsa de mão, tive a curiosidade de perguntar: afinal porque eu havia sido parado já que não tinha bagagem.  A resposta foi: exatamente por ser diferente.  Ironicamente, o que eu achava que me liberaria foi a causa de ter sido parado.

Quando retornei ao trabalho, primeira coisa que me perguntaram foi como era o México e eu dei as impressões do que havia visto durante o Colóquio.  Então, alguém me perguntou surpreso: “Você não foi visitar as pirâmides de Yucatan ?”  Me senti como se tivesse feito algo errado e respondi um tanto atônito: “Eu fui a um congresso e não a passeio turístico”.  A cara de reprovação do meu interlocutor me chamava de idiota. 

Mais uma vez eu estava sendo diferente.  Chegando de Miami sem compras (nem teria dinheiro pra isso se fosse o caso) e nem aproveitando a viagem (paga pelo governo) pra fazer turismo.  Para encerrar o episódio, minha esposa odiou a bolsa e nunca a usou.  Nem sei qual foi o seu paradeiro.

Produzir ideias tem um preço, ser diferente tem um preço, nem sempre fácil de pagar, mas necessário para saldar o débito com o nosso próprio Eu.  Augusto Cury

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