ENGAVETAMENTO
Essa palavra, normalmente, descreve o acidente sequencial envolvendo múltiplos carros. Mas não é disso que se trata essa postagem. Refere a um fenômeno bastante conhecido quando alguém, em vez de dar sequência a alguma atividade da qual é responsável, coloca o documento em sua gaveta e o “esquece” lá. Esse tipo de atitude pode ter alguns motivos diferentes. Entretanto, o mais comum e danoso é quando um mal funcionário simplesmente deixa de fazer sua tarefa e a ignora engavetando-a. O pior é quando fica por isso mesmo.
Quando decidi solicitar
minha aposentadoria, eu sabia que iria enfrentar algum tipo de engavetamento. O que eu não sabia é o quanto ele é explícito
e tolerado pela organização.
Passada algumas semanas
que eu havia encaminhado formalmente meu pedido de aposentadoria, eu não havia
recebido nenhum retorno sobre o andamento do processo. Então me dirigi diretamente ao chefe do setor
de pessoal. Era um engenheiro em fim de
carreira que resolvera contribuir com a administração do instituto. Assim, eu o conhecia e vou chamá-lo de
Tibúrcio. Isso permitiu que a conversa fosse
bastante assertiva.
Relatei a Tibúrcio que
já havia encaminhado meu pedido de aposentadoria e gostaria de saber em que pé
estava. Se já havia saído do instituto
para o setor de pessoal civil da Aeronáutica. Fiquei, então, sabendo que aquele tipo de
atividade era responsabilidade da Estrupícia (nome fictício). Tibúrcio, tentando me preparar para o que viria,
me disse: isso está na mão da Estrupícia e ela tem causado muitos problemas com
isso, já faz tempo. Recentemente, disse
ele, alguém me procurou exatamente como você, e já fazia 6 meses que havia solicitado
a aposentadoria e até aquele momento não tinha notícias. Ao consultar Estrupícia, descobri que ela
havia engavetado o pedido e não havia sequer dado o primeiro passo.
Aquela conversa já me
trouxe uma grande indignação e me fez lembrar o porquê de ter solicitado a
aposentadoria. Questionei Tibúrcio com a
pergunta óbvia: como você permite isso
? Porque não a transfere ? (Considerando todos os episódios descritos
aqui, nem perguntei sobre algum tipo de punição). A resposta foi ridícula: “não temos quem a
substitua. A solução é esperar que ela
se aposente.” Retruquei imediatamente: “duvido
que não possa ser substituída. Imagine
que ela tenha um piripaque hoje e morra.
Ninguém irá assumir suas funções ?
Outra coisa, se ela está segurando a aposentadoria de todo mundo, como
ela mesmo irá se aposentar ? Será que
está esperando chegar a vez dela para então liberar os outros ?”
Não sei o que Tibúrcio
fez mas nossa conversa surtiu efeito pois meu processo seguiu adiante naquela
mesma semana. Algum tempo depois disso,
Estrupícia se aposentou e, na sequência, saiu também a aposentadoria de dezenas
de funcionários. Acabara o
engavetamento.
Esse episódio mostra
mais uma vez o que um saudoso companheiro, já falecido, me disse uma vez: a
chefia sabe o RG e CPF de todo mal funcionário e decide não fazer nada. Ou seja, a responsabilidade disso é da chefia
que permite que o mal feito não apenas aconteça, mas prospere.
Até hoje não entendo o que
se passa na mente de pessoas que, ocupando cargo de chefia, nada fazem com
respeito às coisas erradas que ocorrem debaixo de sua responsabilidade. Funcionários que simplesmente não comparecem
ao trabalho ou quando o fazem nada produzem.
Não são repreendidos muito menos punidos. Quando muito, são transferidos e vão continuar
com a mesma atitude em outro lugar.
Mas sei as consequências
de médio e longo prazo desse tipo de práxis.
O descrédito institucional e o caminho da insignificância. Isso só perdura por ser dinheiro público e que
se mantém a perder de vista. Na
iniciativa privada simplesmente leva à falência e ao encerramento das atividades.
Uma coisa é certa, nada
passa em branco. Toda escolha ou omissão (omissão também é uma escolha), sem
exceção, é uma semente, e toda semente terá o seu fruto correspondente. Flávio Augusto
“Não espere que os seus
erros se consertem sozinhos com o tempo, a omissão fará você errar mais." Rafael Valladão
Rocha
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