OPORTUNIDADE

 Era final da década de 90 (não lembro exatamente o ano), eu estava trabalhando em minha sala quando adentrou o major Lupicínio (nome fictício).  Seria a primeira vez (e última) que ele entrava em minha sala.  Eu o conhecia fazia alguns anos pois trabalhávamos na mesma divisão.

Muito educadamente, Lupicínio solicitou minha atenção pois ele precisava que eu o ajudasse dando-lhe um parecer favorável para o plano de doutoramento que pretendia submeter para as esferas superiores.  Esse doutoramento seria feito no exterior.

Até aí nada demais.  Com certa frequência eu era (e ainda sou) chamado a dar algum parecer sobre propostas de desenvolvimento de algum assunto ligado à minha área de expertise. 

No caso de Lupicínio, chamava a atenção o fato de que ele já estava na divisão há mais de 10 anos e só agora estaria interessado em um doutoramento.  Eu conhecia sua família pois almoçávamos no mesmo restaurante e suas filhas já eram crescidas.  Eu não precisei externar nenhuma dúvida sobre isso pois ele foi logo abrindo o jogo.  “Essa é minha última oportunidade de levar minha família para conhecer o exterior!” disse ele. 

Aquela frase me deixou um tanto sem palavras.  Na minha mente, pensei:  “que descaramento, se eu fosse mandar a família de alguém para o exterior, mandaria a minha”.  Mas a questão ali não era se mandar a família para o exterior era uma coisa justa ou não.  A motivação/objetivo era o problema. 

Aquele homem estava querendo pleitear um curso no exterior (bancado pelo Estado obviamente) não para melhorar seus conhecimentos ou para ajudar o projeto ou quiçá o país.  Não estava avaliando se estava preparado ou não (eu conheci vários que foram fazer curso no exterior e foram reprovados).  Estava, simplesmente, buscando uma oportunidade de levar a família para conhecer o exterior.

Não houve nenhum problema em declinar a ajuda pois o assunto descrito era totalmente fora da minha área de ação.  Portanto, minha opinião não agregaria valor.  Posteriormente, fiquei sabendo que ele não conseguiu o tal doutoramento. 

O episódio, entretanto, nunca saiu da minha lembrança.  Quantos indivíduos encontrei, ao longo da minha carreira, que viam no exercício de sua função como servidor público, uma busca por oportunidades.  Aproveitar oportunidades deveria ser virtuoso.  Se você tem a oportunidade de fazer um curso faça o seu melhor durante o mesmo.  Mas se o objetivo real não é o curso, a oportunidade passa a ser oportunismo. 

Ou seja, oportunidade tem ética.  Caso contrário, isso cria uma cultura tal que não se percebe o quão errado é o que se pretende.  A questão não é se a oportunidade existe e se está dentro das regras ou não.  É se ela é justa ou não.  Se a motivação é válida ou não.

Nesse blog postei alguns “causos” (não todos) como o de hoje (vide Turismo Gratuito e Ama Seca).  Cheguei a arrumar inimigos por negar-lhes oportunidades de ida ao exterior, simplesmente porque não fazia sentido além da experiência de estar no exterior.  Mas não abri mão do que me dizia a consciência.

DIFERENÇA ENTRE REPUTAÇÃO E CARATER

Caráter vem de dentro, Reputação vem de fora;

As circunstâncias em que vives determinam a tua Reputação; a verdade em que crês determina o teu Caráter.

Reputação é o que se supõe que tu sejas; Caráter é o que tu és.

Reputação é feita num momento; Caráter é constituído durante toda a vida.

Reputação é o que os homens dizem de ti sobre a tua sepultura; Caráter é o que os anjos dizem de ti diante do trono de Deus.

William Hersey Davis

Comentários

  1. A motivação "parecer bom", mas o trabalho de uma vida inteira  de escolher fazer o seu melhor ,é  o que trás  consistência.

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