SELEÇÃO ÀS AVESSAS

 Em 1997, o CTA organizou um curso de gerência de projetos de alto nível.  Trouxe professores da USP para um curso de um ano que, diga-se de passagem, foi muito bom.  Tive a oportunidade de cursar a primeira turma.  O objetivo era formar as lideranças do futuro.  Entre meus colegas de turma havia diversos militares.  Um deles veio a ser o diretor do IAE.

No ano seguinte, a segunda turma já estava em funcionamento quando eu precisei falar com um indivíduo que estava fazendo o tal curso.  Fui até a sala onde se realizavam as aulas e espiei pela porta para tentar identificar a pessoa com quem eu precisava falar.

Tive, então, a oportunidade de observar quem era o corpo discente daquele momento.  Para minha surpresa, a maioria era constituída dos funcionários mais inúteis e refratários ao trabalho.  Aqueles que não se sabia o que fazer com eles, depois de diversas tentativas para lhes extrair algum tipo de produtividade.

Naquele tempo, já estava muito claro a maneira com que se tratava um funcionário que simplesmente ou não queria ou não conseguia trabalhar.  Tentava-se uma transferência para outro setor.  Quem sabe a mudança de atividade ou de ambiente pudesse levar o gajo a fazer valer o salário que recebia ao fim do mês?  Conheci alguns que foram transferidos diversas vezes e adivinhe?  Não mudou nada.  

Como alternativa às transferências, mandava-se o fulano para fazer algum curso.  Não necessariamente ligado à área de interesse do local de trabalho.  Apenas para manter o tipo com alguma atividade (terapia ocupacional) ou mesmo mantê-lo longe do ambiente de trabalho para não atrapalhar / contaminar o mesmo.

Entretanto, era a primeira vez que eu via aquele tipo de gente fazendo um treinamento para ocupar cargos de chefia.  Isso era a antítese do princípio de Peter (mencionado na última postagem).  Você não escolhe os melhores para treinar para serem os futuros chefes.  Escolhe os piores.  Era uma seleção às avessas. 

Uma definição de gambiarra é:  a solução de hoje é o problema de amanhã.  Você resolve agora a situação de se livrar momentaneamente de um mau funcionário, preparando-o para ocupar algum cargo de liderança no futuro.  É a receita de um desastre.  Com regra universal da própria natureza, você colhe o que planta. 

Isso me lembra uma frase de um ex-reitor de Havard; “se você acha que a educação custa caro, experimente a ignorância”.  No caso em questão, trata-se de colocar a ignorância ou incompetência em posição de comando.  Como poderia um cego guiar outros cegos ?  Ambos cairão no barranco, disse Jesus.

O imediatismo de resolver uma questão, deixando as consequências para o futuro (que normalmente quem tomou a decisão não está mais presente) é de uma irresponsabilidade atroz.  

Ao mesmo tempo, tomar decisões e atitudes que vão contra a cultura vigente traz grandes problemas.  O caminho estreito que leva a um lugar seguro, é árduo.  Você é considerado malvado e até mesmo injusto.  Tive que ouvir de um colega de trabalho que eu não soube compreender os problemas de um funcionário que, simplesmente não ia trabalhar para cuidar de seus interesses pessoais.  Talvez esse colega achasse que eu deveria indicar a pessoa para um curso de liderança (em malandragem).

De minha parte sempre me preocupei em não procurar atalhos.  O que precisa ser feito deve ser feito.  O mérito e a dedicação devem pautar a carreira de qualquer um.  Tentar caminhos tortuosos para contornar isso leva ao fracasso e a ignomínia.  Se você quer vencer uma batalha, escolhe seus melhores soldados e generais.

Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha? 1Crointios 14:8

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