QUASE
Quando eu ainda estava na faculdade, tínhamos um pequeno sítio em uma cidade próxima ao Rio de Janeiro, chamada Itaguaí. Nele havíamos construído uma pequena piscina que era abastecida com água de poço. Na beira da piscina havia um pequeno lugar com água onde se poderia limpar os pés antes de entrar. Isso porque o caminho até a piscina não era pavimentado e sim de terra.
Num certo dia eu estava
mergulhado na piscina, tentando avaliar quanto tempo eu poderia ficar
submerso. Quando ouvi uma gritaria do
lado de fora. Me levantei rapidamente e
vi minha mãe de pé fora da piscina e meu pai fazendo seu habitual escândalo.
Perguntei: o que aconteceu
? A resposta foi imediata: sua mãe quase
quebrou a cabeça !! Olhei para minha
mãe, que estava um tanto constrangida com a gritaria, e perguntei novamente: o
que aconteceu mamãe ? Ela respondeu: eu
pus o pé aqui (no local próprio) para lavar meu pé e ele escorregou. Não havia acontecido nada e, então, olhei
novamente para meu pai com um olhar do tipo que papo é esse de quebrar a cabeça
? Nem precisei falar nada, ele já se
defendeu, sem perder a pose, com uma frase que ecoa até hoje nas minhas lembranças. Ela quase escorregou, quase
caiu e quase quebrou a cabeça !!
O disparate era tão grande que
mereceria uma risada. Mas conhecendo meu
pai ele tomaria isso como um insulto pessoal e partiria para a agressão. Simplesmente, encerrei a questão com um: não
exagera, não foi nada. Posteriormente,
sem a presença dele obviamente, isso virou motivo de piada. Hoje seria digno de um meme.
Hoje me lembro desse episódio
e vejo como uma mente pode distorcer a realidade em função de seus próprios medos
e traumas. Aquilo que poderia ser apenas
uma possibilidade distante tornou-se um quase triplo. Ou seja, faltou pouco para acontecer. Não se trata de uma simples mania de exagerar,
mas vivenciar antecipadamente algo que não ocorreu ou com baixíssima possibilidade
de ocorrer.
Não sei que tipo de problemas
meu pai deve ter vivenciado em sua juventude (ele nunca falava dele mesmo) para
gerar essa visão apocalíptica das coisas.
Entretanto, isso que já seria ruim para uma única pessoa, se torna ainda
pior quando se quer levar os outros a ter a mesma perspectiva.
Fico imaginando que ele seria
um fervoroso adepto à lei de Murphy que diz que tudo que pode dar errado, dará
errado. Quando o engenheiro aeroespacial
Edward A. Murphy Jr. disse isso estava falando de experimentos reais em que a
análise de risco era concreta.
Certamente essa visão de vida
não teve ressonância em mim. Sempre fui
muito objetivo ao enfrentar os problemas ao curso da minha existência. Entendo que se existe possibilidade de coisas
ruins acontecerem também existe para coisas boas acontecerem. Porque imaginar que o que é ruim tem mais chance
de ocorrer do que o que é bom? Os quase
reais que me aconteceram foram, na verdade, livramentos que tive (vide postagem
Providência Divina).
Desconfie do destino e
acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que
planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo,
quem quase vive já morreu. Sarah Westphal
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