PASTA BRANCA
Recentemente, minha empresa precisava de um certo certificado emitido por um órgão público que prefiro não identificar. O pedido é feito pela internet. Era preciso pagar uma certa taxa para a qual foi emitido um boleto. Até aí tudo bem quando começam os problemas.
O tal boleto só poderia ser
pago através do Banco do Brasil. Ou
seja, uma empresa que não tivesse conta no Banco do Brasil só poderia pagá-lo
se tirasse o dinheiro vivo do caixa e fosse em uma agência do BB para efetuar o
pagamento. Isso, em tempo de PIX não faz
nenhum sentido.
Como se não bastasse a
dificuldade para pagamento da taxa, a entrega de documentos teria que ser
presencial e em papel. Outra coisa que
não faz sentido em tempos de transferência de documentos em formato digital e assinatura
também digital (inclusive pelo site oficial do governo).
Quando meu sócio se dirigiu a
São Paulo e foi até a tal repartição para dar entrada na documentação, a
atendente conferiu os documentos e lhe disse que não poderia aceitar a entrega
dos mesmos pois deveriam estar dentro de uma pasta branca.
Eu que pensava já ter ouvido
todo tipo de disparate, fui surpreendido – pasta branca ?!?!
Meu sócio não questionou esse
absurdo burocrático e saiu em busca de uma pasta branca. Não encontrou nas papelarias da redondeza. Mas teve a sagacidade de, ao encontrar uma
gráfica, pedir para produzir uma pasta branca.
Levou-a para a repartição pública em questão e conseguiu dar finalmente
entrada no pedido de tal certidão.
Minha indignação deu um pico
pior do que açúcar no sangue após tomar caldo-de-cana. Tal exigência é um verdadeiro escárnio a
qualquer trabalhador que necessita do serviço público. Como o cidadão brasileiro, que trabalha
sustentando essas organizações improdutivas, poderia reclamar por mudanças
efetivas ?
Nessa mesma semana, encontrei
no LinkedIn uma postagem que dá uma perspectiva mais clara: A lei de Corcoran. A Lei de Corcoran traduz o câncer da
burocracia defensiva, onde o excesso de formalismo (leia-se regras absurdas)
mascara a incompetência e a paralisia na tomada de decisão.
O crescimento exponencial de
regras é proporcional ao medo de errar. Nas
estruturas onde impera a Lei de Corcoran, o foco desvia-se do impacto real e
fixa-se na proteção jurídica e administrativa individuais. A métrica de sucesso destas organizações
torna-se puramente quantitativa e interna. Avalia-se o desempenho pelo volume
de papel produzido e não pelo valor gerado para o cliente, cidadão ou
acionista.
Na mesma postagem mostra o
caminho para acabar com a Lei de Corcoran.
Mas isso só poderia ser feito pela alta direção da organização que via
de regra também está contaminada pela doença.
Só o fato de perceber que
muita gente séria já identificou o problema e é capaz de apontar o caminho de
solução, me deixou mais conformado.
Entretanto, a doença ainda
está plenamente ativa e precisa ser combatida.
Caso contrário, logo seremos orientados a comprar mais pastas brancas.
Ilusão de produtividade.
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