FEBRE OBSCURA

 Logo após minha formatura, o pai de um colega de turma e amigo, teve um problema de saúde que o levou a uma internação hospitalar.  Ele ocupava um cargo de funcionário público relevante e havia surgido uma oportunidade de ser promovido ao mais alto escalão de sua carreira e ir para Brasília.  O processo de escolha durou um certo tempo, tempo esse de grande expectativa por parte dele.

Aconteceu que ele não foi escolhido.  Como normalmente acontece, foi uma escolha política e isso o deixou em grande estresse, sentindo-se mais do que derrotado, mas traído.  A consequência foi um tanto óbvia, começou a se sentir mal com todo aquele estresse.  Muita gente, nessas horas, morre de ataque cardíaco ou derrame.  O caso dele foi um pouco menos intenso, mas sério o suficiente para ficar internado por uma semana.

O curioso foi o diagnóstico liberado por ocasião de sua alta: febre obscura de origem virótica não especificada.

Ora, tal sentença não diz exatamente nada.  Teria sido muito mais honesto dizer que: não conseguimos diagnosticar nada e, fosse o que fosse, passou.  Pelo jeito havia uma necessidade de escrever um laudo e pegaria mal não ter conseguido chegar a alguma conclusão concreta (o que ao meu ver são seria nenhuma vergonha).  Então escreveu-se uma conclusão ridícula, que não identificava nada e era uma verdadeira afronta a um intelecto mediano.

Esse tipo de indignação me acompanhou a longo da minha carreira.  A febre obscura passou a representar pessoas que ao serem obrigadas a se posicionar, dão respostas vazias (algumas absurdas) para não se comprometerem seja por ação, inação ou ignorância.  Basta ver as postagens como NERO e TEMPO VERBAL.

Como o próprio nome indica é um tipo de doença.  Mas não uma doença física, uma doença da alma, com origem em um caráter distorcido.  O desejo de “tirar o corpo fora” ou varrer o lixo para debaixo do tapete, sem se importar o quanto isso possa ser prejudicial para uma pessoa ou para toda a comunidade que o cerca. 

No caso do pai do meu amigo não teve maiores consequências.  Entretanto, nos casos que diversas vezes menciono nesse blog, via de regra, geraram impunidade e a licença para que os erros continuassem a se propagar.  O caso descrito na postagem DIGI-DENÚNCIA culminou com meu pedido de aposentadoria.  Era hora de dar um basta.

A verdade é que ao esconder/disfarçar algo, ou fingir que o problema não existe, desejamos que uma mágica aconteça e que tudo suma, de uma hora para outra, ou se ajeite por conta própria sem nenhum esforço, feito mágica. Mas não é assim que as coisas acontecem.

Pessoas de caráter não varrem o lixo para debaixo do tapete.  Tem gente que diz que joga lixo na rua para garantir o emprego do gari.  Mas morrer para dar trabalho ao coveiro ninguém quer, né ? (autor desconhecido)

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