O PROSCRITO

Quando estava para me aposentar, recebi como colaborador em minha equipe um oficial recém formado pelo ITA. Vou chamá-lo de Ulisses em homenagem à Odisséia.  Excelente engenheiro, logo se destacou pelo interesse e qualidade no trabalho.

Passado o prazo regulamentar ele conseguiu um mestrado, na área espacial, em uma universidade de renome na Inglaterra, e lá foi ele.  No ano seguinte, eu estava trabalhando na Alemanha, no DLR (agência espacial alemã), quando Ulisses entrou em contato comigo.  Ele ficou sabendo que eu estava lá e propôs visitar-me.

Ele e a esposa passaram um fim de semana conosco e ele me disse o motivo da visita.  Havia uma regra dentro da universidade inglesa que os alunos deveriam fazer suas dissertações (tese) de mestrado em alguma instituição externa à mesma, ainda dentro da Europa.  Isso levaria uma grande troca de informações e inovação.

Então eu lhe mostrei o que era feito no DLR e o apresentei a pessoas que estariam interessadas nesse tipo de colaboração / parceria.  Também pude lhes mostrar a cidade e eles gostaram muito.

Depois que eu havia retornado ao Brasil e soube que o convênio havia dado certo e que Ulisses já estava naquela cidade para concluir seu mestrado.  Foi aí que coisas estranhas começaram a acontecer.

Ulisses foi contatado por outro oficial do IAE dizendo que ele não poderia ter saído do local designado pela portaria sem autorização oficial.  E que ele estaria sendo considerado desertor caso não retornasse imediatamente para a cidade sede da Universidade.

Ulisses explicou, então, que sua saída era uma exigência regulamentar da Universidade (ele havia escolhido a cidade não a necessidade de sair) e que havia sim informado ao COMAER de sua ida para a Alemanha.  A tréplica foi que ele teria que esperar a resposta ao seu comunicado antes de agir.  Ele deveria voltar imediatamente e aguardar.  Interessante que ninguém falou em apressar a autorização de saída.

Ulisses se encontrou em uma sinuca de bico.  Se atendesse à burocracia e voltasse para a Universidade perderia a chance de concluir seu mestrado pois não haveria tempo para o concluir dentro do prazo estipulado na portaria que o designava para tal.  Se permanecesse na Alemanha, estaria desobedecendo uma ordem direta e seria considerado um proscrito.  Ulisses ainda tentou algum tipo de solução administrativa, mas sem sucesso. 

Não sei detalhes das trocas de farpas que aconteceram, mas sei o seu resultado.  Ulisses ficou tão indignado com a situação que constituiu advogado no Brasil e entrou com um pedido de baixa imediata da aeronáutica.  Permaneceu na cidade Alemã  até a conclusão dos trabalhos e só então voltou pra a Inglaterra onde concluiu seu mestrado.  Ulisses não voltou mais para o Brasil.  Fixou residência na Inglaterra e hoje tem uma linda família lá.

Esse episódio mostra como a burocracia pode destruir vidas e objetivos.  Se enquadra perfeitamente no mote que venho repetindo: a operação foi um sucesso pena que o paciente morreu.  O inquisidor de Ulisses não estava preocupado com o objetivo da missão – a formação de alto nível numa área estratégica para o país – estava exigindo o cumprimento de regras que acabavam por impedir a realização da missão.

Também tem uma semelhança com a postagem DESERTOR.  Naquele caso, Estupídeo tinha algum problema pessoal comigo pois eu já o havia confrontado antes.  Não sei qual o verdadeiro motivo no caso de Ulisses, mas sei que foi mais danoso para o país, que perdeu um ótimo e bem formado engenheiro.

Ulisses tomou uma atitude que eu também teria tomado (e já havia tomado antes):  se essas são as regras, decido não jogar.  

A burocracia não é um mal necessário, é um mal que precisa ser combatido e extinto. 

Comentários

  1. Concordo , o mais danoso para o país, que perdeu um ótimo e bem formado engenheiro.

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