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PRINCÍPIO DE PETER

  Organizando todo o material que tenho acumulado nesses 47 anos de profissão, me deparei com 2 pedidos de transferência que fiz do IAE para o INPE em 1991 e 1992.   Não foram aceitos e dou graças a Deus por isso.   Ele cumpriu seus propósitos ao não permitir a mudança.   Mas, isso me trouxe à mente os motivos que me levaram a essa atitude tão radical. Em 1991 estávamos vivendo uma grande reorganização institucional devido à fusão de 2 institutos: o IPD (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento) e o então IAE (Instituto de Atividades Espaciais).   Essa fusão trouxe muitos problemas ao desenvolvimento do VLS (vide postagem O Jênio).   Deve ter atrasado o  primeiro lançamento do VLS, em anos. Foi durante esse período conturbado que assumiu a chefia da divisão o major Clarisbadeu (nome fictício).   Clarisbadeu tinha uma ótima formação, inclusive com doutorado em uma famosa instituição americana.   Sua área de atuação se enquadrava perfeitamen...

OPORTUNIDADE

  Era final da década de 90 (não lembro exatamente o ano), eu estava trabalhando em minha sala quando adentrou o major Lupicínio (nome fictício).   Seria a primeira vez (e última) que ele entrava em minha sala.   Eu o conhecia fazia alguns anos pois trabalhávamos na mesma divisão. Muito educadamente, Lupicínio solicitou minha atenção pois ele precisava que eu o ajudasse dando-lhe um parecer favorável para o plano de doutoramento que pretendia submeter para as esferas superiores.   Esse doutoramento seria feito no exterior. Até aí nada demais.   Com certa frequência eu era (e ainda sou) chamado a dar algum parecer sobre propostas de desenvolvimento de algum assunto ligado à minha área de expertise.   No caso de Lupicínio, chamava a atenção o fato de que ele já estava na divisão há mais de 10 anos e só agora estaria interessado em um doutoramento.   Eu conhecia sua família pois almoçávamos no mesmo restaurante e suas filhas já eram crescidas. ...

PIEDADE

  No final da década de 80, eu ia periodicamente ao Rio para me encontrar com meu orientador de doutorado.   Como eu não tinha dinheiro para ir de carro, ia e voltava no mesmo dia de ônibus. Eu pegava o ônibus na rodoviária de São José dos Campos por volta da meia-noite e chegava na rodoviária Novo Rio às 6:00.  De lá pegava outro ônibus e ia para o Leme onde morava meu orientador.  Ele fazia a cortesia de me receber em sua casa para conversarmos sobre o avanço do trabalho de doutoramento. Logo após a hora do almoço eu já estava novamente na rodoviária Novo Rio para voltar para casa.  Pegava o primeiro ônibus que fosse para São Paulo e saltava no meio do caminho, para chegar em casa. Numa dessas voltas, aconteceu um episódio que me marcou.  Eu estava na fila da companhia de ônibus para São Paulo para comprar a passagem e fui abordado por um homem.  Ele estava vestido de forma bem humilde e falava com voz de tristeza pedindo se eu poderia completa...

AVALIAÇÃO

  Nos primeiros dias de fevereiro de 1980, logo após retornar das minhas primeiras férias, me dirigi ao meu chefe imediato no IPD (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento do CTEx), o major Ábaco (nome fictício).   Me sentei em frente à sua mesa e lhe disse que gostaria de ouvir uma avaliação com respeito ao meu desempenho durante o ano anterior.   Afinal eu estava trabalhando naquele local fazia um ano (e era meu primeiro ano como engenheiro) e eu estava ansioso para saber se eu estava me saindo bem ou não.   Naquela época, eu não tinha ideia de como deveria ser a conduta de um engenheiro.   A resposta de Ábaco foi inesperada: “todos nós aqui estamos subutilizados”, disse ele.   Bem, isso não me ajudou em nada e continuei sem saber se minha conduta era adequada.   Se eu estava indo bem ou não.   Acredito que eu deveria estar indo bem pois, naquele mesmo ano, recebi um pequeno aumento no salário.   Entretanto, nunca recebi algum tipo de elo...

DECISÃO POLÍTICA

  Após todo o estresse descrito da postagem anterior (anti-terapia), finalmente chegou o dia do lançamento.   Eu estava, na sala de operações que monitorava tudo o que acontecia no foguete.   Era lá onde toda a sequência de eventos e a contagem regressiva era monitorada e operada. O evento era revestido de importância.   Na plataforma de visitantes estava o próprio presidente da República além de diversas autoridades. Já durante a contagem regressiva, mas antes de iniciar a contagem automática, acendeu uma luz vermelha piscante na tela de um dos computadores.   Era sinal de problemas.   O responsável dessa operação, o Engenheiro Gines Garcia (morto na tragédia de 2003), verificou que havia indicação de despressurização do segundo estágio.   Sem a pressurização, o motor não entraria em operação após o comando de ignição. Para consertar o problema seria necessário que fosse desmontado aquele estágio.   Ou seja, o lançamento deveria ser adiado....

ANTI-TERAPIA

  Não se faz ideia de quão complexo é a campanha de lançamento de um foguete.   A maioria das pessoas assiste pela televisão a contagem regressiva que parece que começa no 10 e vai decrementando até atingir o zero.   Entretanto essa contagem começou muito antes.   Pelo menos 24 horas antes. A contagem regressiva marca as ações que precisam ser tomadas até o comando de ignição (o zero da contagem).   Uma enorme quantidade de eventos precisa acontecer e cada um é checado para se passar para o próximo.   Todo um procedimento é previamente preparado para saber o que fazer se algo não sai do jeito que devia ser. A contagem regressiva tem 3 fases.   A primeira (logo no início) se algo não está correto, interrompe-se a contagem e, quando corrigido, continua-se ao ponto de onde parou.   Numa segunda etapa, se a contagem tiver que ser interrompida, retorna-se a algum ponto anterior.   Por último (já próximo do lançamento) se a contagem for interro...

FELICIDADE PREOCUPADA

 O  dia em que foram abertas as notas do vestibular do IME (dezembro de 1973), foi de fato inesquecível.   Era a coroação de 10 meses de estudo árduo rumo a um objetivo ainda distante e, de certa forma, indefinido. Competindo com centenas de candidatos também preparados, a emoção de ter passado naquele embate era difícil de descrever. Logo após o término do evento de divulgação do resultado, fui até a calçada em frente da praia Vermelha (um cartão postal do Rio de Janeiro e local de filmagem de muitas novelas e filmes).  Enquanto olhava para esse cenário paradisíaco, com uma sensação de alívio e extrema alegria, percebi que ao meu lado havia um colega de cursinho.  Seu nome era Ivan (hoje já falecido) e ele também havia passado. Me aproximei dele e começamos a conversar (era a primeira vez que eu falava com ele).  Então ele disse algo que me chamou a atenção.  Esse é o momento mais feliz da minha vida, disse ele.  Fez uma breve pausa e continu...