DANDO NÓ EM PINGO D’ÁGUA

 Após a construção do LINCS as atividades do Projeto SIA seguiram a todo vapor.  Um dos objetivos do projeto era dominar a tecnologia de produção de sensores inerciais e uma das empresas que participavam do projeto já tinha desenvolvido um sensor a fibra ótica.  Para permitir uma produção desse tipo de sensor com a qualidade e precisão necessária era fundamental ter uma bobinadeira de fibra ótica.

Identificamos uma empresa americana que produzia esse tipo de equipamento.  Entramos em contato e fechamos a compra de uma, ao custo de mais de 1 milhão de dólares.  O recurso financeiro foi transferido para um banco americano e ficamos aguardando o restante do processo legal / burocrático. 

Para nossa surpresa o departamento de comércio americano negou a licença de exportação e o dinheiro nos foi devolvido.  Um oficial general da FAB foi aos Estados Unidos saber o porquê da negativa e lhe foi mostrado uma decisão do congresso americano de não apoiar o programa espacial brasileiro.  Ficou por isso mesmo.

Entretanto, ainda havia a necessidade de uma bobinadeira que pudesse produzir os sensores inerciais que tanto desejávamos.  O que fazer ?  Naquela época eu já havia adquirido mesas rotativas de alta precisão na Suíça.  Esses equipamentos servem para calibrar exatamente o tipo de sensor que seria produzido pela bobinadeira.  Não precisou de muito esforço para se concluir que lá seria o lugar certo para se produzir uma bobinadeira adequada.

Fizemos vários contatos, sempre deixando claro o problema de embargo para aquele tipo de equipamento.  Foi quando surgiu uma proposta muito esperta.  Havia conhecimento entre as empresas da expertise de cada uma.  Então se propuseram fazer um projeto conjunto de uma bobinadeira, cada uma fazendo um pedaço.  Assim, decidiu-se que o tal equipamento seria dividido em 3 partes, cada parte feito em local diferente e exportado com uma finalidade específica – que não tinha nenhum tipo de embargo.  Chegando ao Brasil, pagamos o serviço de montagem e calibração da soma dos 3 equipamentos que juntos formavam uma bobinadeira.

Assim, obtivemos uma bobinadeira sem jamais termos comprado uma! Foi um verdadeiro nó em pingo d’água.  Tudo dentro da mais estrita observância legal.  Isso era uma prova clara de que, quando se tem determinação e competência, é possível encontrar caminhos para solucionar problemas aparentemente instransponíveis.

Durante o processo de aquisição e produção do equipamento, tivemos que construir um prédio específico para abrigá-lo.  Como foi construído com os recursos do Projeto SIA, todo o acompanhamento foi feito por mim e pela minha equipe e não houve nenhum problema esdrúxulo como no caso do LINCS.  Um fato digno de nota é que a empresa PIKARETTA se inscreveu na licitação para construção desse prédio.  Quando soube quem iria acompanhar a construção, retirou a proposta.  O prédio foi entregue acabado conforme contratado.

A inauguração desse prédio que passou a se chamar LABSIA, juntamente com a bobinadeira , também foi feita com a presença do ministro da Ciência e Tecnologia em julho de 2013.

Foi uma grande sacada que resolveu o problema.  Mas não sei se hoje haveria condições de se realizar novamente o que foi feito pouco mais de 10 anos atrás.  Mesmo tendo sido seguido todos os trâmites legais (feitos por uma fundação muito competente – FUNDEP) sempre aparece alguém aventando alguma ilegalidade ou um processo burocrático que não foi seguido.  Em seguida, tudo volta à estaca zero.  Parece que há uma determinação não declarada de impedir nosso progresso tecnológico. 

“Nada é suficientemente bom.  Então vamos fazer o que é certo, dedicar o melhor dos nossos esforços para atingir o inatingível, desenvolver ao máximo os dons que Deus nos concedeu, e nunca parar de aprender.”  Beethoven

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