FATOR 5

 Conforme mencionado na postagem “Catedral de Barcelona”, a empresa Pikaretta havia entregue o prédio não concluído.  Uma das coisas que faltava era a instalação elétrica.  O projeto do prédio (feito por outra empresa) incluía toda a instalação elétrica.  Então, não seria nenhum problema contratar uma empresa para a execução daquela instalação.

Antes de passar para a busca por orçamentos, eu procurei a própria empresa que fez o projeto e perguntei quanto eles acham que custaria a implementação daquela rede elétrica.  Vale dizer que, por lei, a empresa projetista não pode construir o que ela mesma projetou.  Assim, seria uma opinião isenta de interesse.  Eles me disseram que estimavam em 60 mil reais o custo da instalação incluindo os materiais (que estavam detalhadamente descritos no projeto).

Entrei em contato com uma empresa que me havia sido indicada.  Falei com o engenheiro responsável e lhe disse que estaria enviando (por e-mail) o projeto e gostaria de receber um orçamento para sua execução.  Alertei a ele explicitamente que eu era o responsável pelo contrato e que esperava um orçamento honesto.

Dois dias depois recebi o orçamento de 300 mil reais  (ou seja, 5 vezes mais).  Fiquei indignado com aquela proposta e liguei para o engenheiro novamente.  Disse a ele que era inaceitável o orçamento feito e que eu já tinha uma ordem de grandeza de valor real daquela execução.  Estranhamente, ele me pediu desculpas e disse que a secretária havia cometido um engano (não dizendo qual).  Meia hora depois eu recebi um novo orçamento de 210 mil reais.  Ou seja, uma reclamação telefônica diminui o custo de serviço em 30%.

Fiz outros orçamentos e novamente aquele fator 5 (aproximadamente) acontecia.  Então me lembrei de um episódio que aconteceu em 1983.  Eu havia sido contratado para ministrar um curso de eletrônica para técnicos da rede ferroviária federal.  Quando terminei o curso fui no banco buscar o pagamento (naquela época era assim).  Aquela agência era quem recebia os pagamentos da rede ferroviária para a empresa responsável por dar o treinamento (eram vários cursos).  Cheguei no caixa e me identifiquei como o ministrador do curso X (dei a sigla do treinamento).  O caixa, então, me disse: vou ver se o pagamento já foi feito.  Em seguida gritou para um colega: o depósito do curso X já entrou ?  O colega respondeu que sim e acrescentou o valor depositado : 5 vezes o valor do que eu receberia.

Eu gostaria de acreditar que aquilo fosse somente local ou mesmo eventual, mas não é.  O que me pareceu é que o tal fator 5 era uma praxe para os contratos públicos.  Ou seja, qualquer que seja o serviço cobra-se 5 vezes mais do que seu custo efetivo.  Eu entendo perfeitamente que uma empresa não pode cobrar o valor do custo real do serviço.  Primeiro porque deve pagar impostos sobre o valor recebido.  Depois precisa ter margem de lucro para sobreviver até o próximo contrato.  Finalmente há também o risco de atraso no pagamento (as vezes muitos meses ou mais de 1 ano).  Estou considerando que o custo real deva incluir o valor intangível do conhecimento necessário à sua execução.  No caso de uma obra civil comum isso seria desprezível.

Entretanto, 5 vezes mais, mesmo levando em conta todos esses argumentos, ainda assim é um despautério.  Creio que nesse pacote imenso de sobrepreço está incluso: a propina dos fiscais (normalmente oferecida para “facilitar” as coisas); os mensalões daqueles que tomam as decisões; caixa 2 bem como lucros não declarados.

No meu caso resolvi o problema de uma maneira muito simples.  Como eu tinha a lista detalhada de material a ser utilizado, fui em uma loja especializada e adquiri tudo, como material de consumo, com desconto por ter sido pago à vista.  Depois procurei um eletricista competente que fez tudo com uma pequena equipe como pagamento de serviço eventual.  Resultado: custo total 70 mil reais. 

Isso aconteceu há 15 anos atrás, mas não tenho dúvidas que continue acontecendo.  Só não sei se o fator ainda é 5.  O mais triste disso é que parece que é aceito com tanta naturalidade que até leva a crer que não seja errado.  A quantidade de pessoas que se beneficia disso é enorme.  Trata-se, entretanto, de corrupção e roubo ao erário.  Na minha opinião, mais do que corromper as práticas gerenciais corrompe-se a alma.

“A justiça pode irritar-se porque é precária. A verdade não se impacienta, porque é eterna.”  RUY BARBOSA

Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.  Provérbios 4:23

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