2%
Em 2010 houve uma tentativa do DCTA em conseguir lançar um veículo lançador que fosse um modelo de qualificação. Mesmo que não houvesse um satélite a bordo, serviria como consolidador da tecnologia desenvolvida até então. Para isso, foi solicitado um estudo de trajetória para tal veículo e esse estudo foi encaminhado para a minha subdivisão (de controle).
Imediatamente notou-se
um erro naquele estudo. Havia sido
esquecido de se incluir a deflexão de 11 graus nas tubeiras do primeiro estágio. Isso geraria uma perda no empuxo do primeiro
estágio de, aproximadamente, 2%. Assim,
a trajetória estudada tinha 2% a mais de energia o que geraria uma diferença de
dezenas de quilômetros. Ou seja, estava
completamente errada.
Imediatamente, liguei
para a gerência de veículos e informei verbalmente o equívoco, achando que isso
seria suficiente para que o estudo fosse refeito. Qual não foi a minha surpresa que, alguns
dias depois, recebi a resposta dizendo que não haveria nenhum problema pois
eram apenas 2%.
Isso me deixou
revoltado. Como assim apenas 2% ? Isso era um erro gigantesco em termos de
trajetória. Para piorar a situação me
comunicaram que, se eu assim o desejasse, fizesse um pedido de novo estudo. Foi com o sangue nos olhos que compareci à próxima
reunião da gerência.
Quando me deram a
palavra eu expliquei o erro e suas consequências. Aproveitei e disse que se havia necessidade
de um pedido seria de desculpas por parte de quem havia se equivocado e não um
pedido de novo estudo. Arrematei a
conversa dizendo que se 2% não era significativo deveríamos aceitar chipanzés
no próximo concurso público pois seu DNA difere pouco mais do que isso dos
seres humanos.
Aparentemente já
estavam esperando, de minha parte, alguma atitude beligerante e não houve
nenhuma réplica. A reunião se encerrou
de forma burocrática. Mesmo depois do
aviso do erro e de minha manifestação a respeito, o relatório da tal trajetória
não foi alterado e ficou tudo por isso mesmo.
Em outras palavras, não deram a mínima.
Ainda bem que o projeto do tal veículo não foi pra frente pois havia
começado muito mal.
Esse episódio é um
claro exemplo, não apenas da arrogância profissional (não dar o braço a torcer
que errou) como também do descaso (e incompetência) com a condução de um
projeto complexo. Um erro de concepção
inicial, ainda que pequeno (não era o caso) gera uma onda de efeitos negativos
que podem perfeitamente por a perder todo o projeto.
A futilidade é a alma
gêmea da ignorância. A arrogância é a
alma gêmea da incompetência. A vaidade é a mãe delas. Maria
Angélica Carnevali Miquelin
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