EFEITO ESPALHAMENTO

Lá pelo início da década de noventa, havia uma subdivisão equivalente à minha que era muito maior e também muito produtiva em termos de documentação.  Nela havia uma tecnologista em informática que, em um determinado momento, estava sem muito o que fazer.  Então, seu chefe, um profissional muito sério, percebendo uma necessidade real e uma possível solução, pediu-lhe que desenvolvesse um software para registrar a documentação da subdivisão.

Assim, foi que a tal funcionária Lucinda (nome fictício) começou com esmero a fazer seu trabalho e logo já havia estruturado o que poderia ser a solução para o catalogação da documentação em questão. 

Entretanto, durante uma reunião com os chefes de subdivisão, seu chefe reportou o que estava acontecendo ao chefe da divisão o Tenente-Coronel Pascácio (nome fictício).  Pascácio exclamou: mas que ótima ideia!  Diga a ela que em vez de fazer um software para a sua subdivisão, faça para a divisão inteira.

Lucinda, inicialmente, se sentiu lisonjeada e parou o que estava fazendo para pensar agora em uma solução mais abrangente.  Acontece que pouco tempo depois o processo se repetiu.  Quando Pascácio relatou a seus superiores os trabalhos da sua divisão alguém teve atitude similar à dele dizendo: que ótima idéia!  Diga a ela para preparar uma solução que controle a documentação de todo o instituto.

Lucinda agora não achou mais nenhuma graça.  Ela havia incialmente recebido à incumbência de fazer uma pequena ferramenta de software para catalogar a documentação de seu grupo (de menos de 20 pessoas).  Até aquele momento não havia catalogado nada e ainda teria a tarefa de pensar em algo que pudesse registrar, catalogar e controlar a documentação de um instituto com mais de mil funcionários.  Evidentemente, aquilo não era trabalho para uma pessoa só, nem mesmo com o conhecimento técnico dela.

Eu não sei o que deu na cabeça de quem ouviu a conversa dos chefes de divisão que logo a noticia havia chegado ao alto escalão e alguém imediatamente sugeriu que o ITA também teria interesse nisso.  Nem se havia concluído uma tarefa e já se queria aumentar a sua abrangência de forma mais do que exponencial.  Havia se tornado um efeito espalhamento (o mesmo que gera a explosão atômica).

Evidentemente, como não foi provido nenhum outro meio para se realizar a tarefa pretendida (somente a coitada da Lucinda) o tempo foi passando e nada aconteceu.  Resultado foi que o ITA comprou um software profissional (feito provavelmente por dezenas de especialistas) para o controle de sua documentação e de sua biblioteca e nunca mais se falou no assunto. 

Posteriormente, fiquei sabendo que Lucinda havia deixado sua subdivisão. Penso eu, por se sentir muito frustrada e inútil.  O tal programa de catalogação da documentação da sua subdivisão nunca foi concluído.

Fico imaginando quantos efeitos espalhamento acontecem por aí.  Nem se concluiu a realização de uma ideia e já se propõe o aumento do escopo que acaba por gerar novo aumento e assim sucessivamente.  Entretanto, diferentemente do efeito do espalhamento atômico que causa uma explosão, esse tipo de espalhamento causa implosão.  Pois, no caso atômico há liberação de energia.  No caso descrito há consumo de energia tanto financeira, temporal e desgaste emocional.

Quando é óbvio que os objetivos não podem ser alcançados, não ajuste as metas, ajuste as etapas da ação.  Confúcio 

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