DEFENESTRADO

Finalmente chegou o dia.  Na segunda-feira 04 de maio de 2015, Santalina (nome fictício) me ligou dizendo que havia saído minha aposentadoria (exatamente 30 anos após meu começo).  Iniciei então o processo de desimpedimento – eu deveria conseguir uma série de assinaturas.

Comecei com uma entrevista com uma psicóloga.  Pensei que era para avaliar minha sanidade ao deixar a instituição.  Entretanto, ela apenas me perguntou qual era o meu sentimento ao me aposentar.  Fiquei um tanto surpreso com a pergunta, mas respondi com tranquilidade: frustração e alívio.  Frustração por não ter feito tudo o que era capaz e alívio por deixar uma instituição que havia se tornado um faz de conta e que só perturbava quem quisesse fazer alguma coisa.  Ela anotou tudo sem fazer qualquer comentário e me liberou.  Acho que minha sanidade havia sido comprovada.

No dia seguinte, que seria o último dia, eu queria me despedir da minha equipe, mas estavam todos reunidos em uma apresentação na direção do instituto.  Eu aproveitei a ocasião e fui me despedir do brigadeiro diretor e disse a ele que o laboratório que eu construíra não conseguiria se manter funcionando com a verba orgânica estatal e que ele deveria fazer um acordo de comodato com alguma empresa que quisesse explorar o serviço que o laboratório pudesse oferecer em troca de mantê-lo funcionando e atender aos interesses do instituto.  Ele respondeu: são essas ideias brilhantes que trazem processos (jurídicos) para o IAE.  Ou seja, ele estava deixando claro que eu não incomodasse mais.

Após o almoço, fui dar aula na pós-graduação do INPE (que faz fronteira com o IAE) e quando retornei, já não me permitiram entrar no IAE.  Agora, só com autorização escrita.  Eu era um estranho.  Para completar, fiquei sabendo que meu endereço de e-mail havia sido apagado, juntamente com todo o conteúdo das caixas de entrada e saída.  Isso me trouxe consequências por muitos anos.  Muitos relacionamentos profissionais não conseguiam mais me contactar porque não tive tempo de avisá-los da mudança.

Em outras palavras, eu havia sido defenestrado – expulso como alguém indesejado.  Mesmo assim, eu estava grato por ter completado a minha carreira com dignidade.  Repeti uma atitude que havia tomado no dia da minha formatura (37 anos antes).  Tirei uma foto do céu.  Eu estava em paz comigo mesmo e isso era o que importava. 

Naquele tempo eu e meu filho mais velho já havíamos criado uma empresa (a CLC) para desenvolvimento de tecnologia de controle nas áreas espacial e de defesa.  Faz 10 anos do ocorrido e nunca mais pus os pés dentro do instituto, embora algumas vezes tenha ido à direção do IAE para assuntos da CLC. 

Quando olho para trás e me recordo de tudo que passei nos 30 anos de serviços prestados e a maneira como tudo terminou, eu poderia ficar indignado.  Mas não fiquei.  Eu era um estranho no ninho e devia mesmo ser defenestrado.  Isso era prova cabal das minhas queixas.

Na verdade, foi uma ruptura necessária para que eu não olhasse para trás em nenhum instante.  Era como se estivesse seguindo a orientação de Jesus de sacudir o pó dos pés ao deixar uma cidade impenitente.  Não tenho saudades de nenhuma espécie e sim a certeza do dever cumprido.  Nada do que havia feito era por reconhecimento e sim porque era o certo a fazer e fiz o meu melhor.

Mas sede fortes, e não desfaleçam as vossas mãos, porque a vossa obra terá recompensa. 2 Crônicas 15:7

Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida. Provérbios 4:23


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