LOUCOS E MENTIROSOS

Recentemente, durante uma reunião em uma ICT (Instituição de Ciência e Tecnologia) para discussão de uma proposta de um grande projeto de pesquisa, escutei uma frase que motivou essa postagem.

A pessoa que a declarou, estava liderando a organização dessa proposta.  Durante a discussão do que podia ou não ser feito, ele me saiu com essa: “quando se pede o impossível, você acaba se cercando de 2 grupos – os loucos e os mentirosos”.  Rimos muito e percebi que acabara de ouvir uma verdade inquietante.

Vou acrescentar um personagem à essa pequena alegoria.  O proponente seria o sonhador.  Aquele que gostaria de ver algo acontecer mesmo que fosse impossível.  Então ele é rodeado de alguns que compram a sua ideia, mesmo que impossível.  Os loucos - eles estarão dispostos a despender todo esforço e diligência para realizá-la.  Esse grupo, via de regra, tem dificuldade de percepção da realidade em que estão inseridos.  Após um longo desgaste e decepções acabam por se tornarem pessimistas e incrédulos.

Mas existe o outro grupo – os mentirosos.  Sabem que a missão é impossível, mas querem tirar proveito disso.  Como perceberam que não haverá como chegar ao objetivo, se sentem seguros de que não poderão ser responsabilizados.  Basta apresentar argumentos reais (que já se sabia antes) para justificar seu fracasso.  Entretanto, essa gente não é masoquista.  São espertalhões, pois nesse meio tempo auferem todo tipo de vantagem.

O mais trágico dessa história é que os mentirosos precisam da presença dos loucos.  Normalmente, são eles que realmente trabalham.  Se estiverem presentes somente os mentirosos, a embromação fica evidente muito rápido e o projeto e a mamata acabam.

Ao longo da minha vida profissional de quase meio século, vi esse cenário se desenhar diversas vezes.  Me pego a pensar como isso poderia ser evitado ou confrontado.  Afinal é tão comum que se tornou um mote.

Não consigo imaginar outro caminho se não que aqueles que não são nem loucos nem mentirosos façam alguma coisa a respeito.  Incluo nisso também os loucos que encontraram a sanidade.

É preciso denunciar todo embuste travestido de desenvolvimento tecnológico.  Tenho percebido que, como empresário, se você expõe alguma falcatrua, você acaba sendo mal visto.  Parece que há uma certa leniência com atitudes antiéticas (vide postagem MINTA).

A questão maior é que deixar o processo de propostas impossíveis serem conduzidas por mentirosos não apenas drena o dinheiro público, mas, principalmente, gera descrédito no investimento em pesquisa e desenvolvimento.

“The only thing necessary for the triumph of evil is for good men to do nothing.” Edmund Burke 

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