ONIOMANIA
Em 1987 estávamos em plena campanha de preparação para lançamento do terceiro protótipo do veículo SONDA 4. O governo americano já nos havia comunicado que não forneceriam mais a plataforma inercial MIDAS, que era utilizada para controlar aquele foguete. Como nós só tínhamos mais uma unidade disponível para voo e outra em manutenção, houve uma preocupação natural com o andamento do projeto. Primeiramente porque, se aquela unidade que dispúnhamos desse algum problema, não teríamos condições de fazer aquele lançamento. Também havia a questão de como seria o próximo lançamento que estava previsto para o ano seguinte (que só aconteceu em 1989).
Foi quando me lembrei que, o
grupo em que eu trabalhava no CTEx antes de vir para o IAE, havia comprado uma
plataforma idêntica a que utilizávamos no SONDA 4. Não me recordo qual foi a justificativa, na
época, para a aquisição desse equipamento.
Mas sabia que ele não havia sido sequer ligado para teste de funcionamento
nem havia qualquer previsão de uso imediato em alguma atividade / projeto.
Então tive uma ideia. Ir até o CTEx testar o equipamento e se ele estivesse
em condições de uso, faríamos um pedido formal de empréstimo – através dos canais
competentes. Esse empréstimo duraria até
que pudéssemos dar manutenção em nossa unidade defeituosa e durante esse tempo
poderíamos continuar as atividades de preparação de lançamento. Já que não era prudente utilizar a unidade de
voo em testes preparatórios.
Entrei então em contato com
meus antigos chefes no CTEx, já que fazia apenas 2 anos que eu havia deixado
aquela instituição. Não falei
diretamente com o chefe do setor, mas com um oficial conhecido e pedi as
diretrizes para solicitar as permissões necessárias e planejar minha ida até lá
para testar o equipamento. É importante
ressaltar que o equipamento nunca havia sido ligado (já havia chegado fazia mais
de 3 anos).
A resposta (via telefone) venho
bem rápida: o Coronel disse que você é
bem vindo aqui para olhar o equipamento, mas não poderá ligá-lo! Aqui me deixou revoltado e respondi na hora para
o oficial (que era meu amigo pessoal).
Qual a utilidade disso ? Ir aí então
para quê ? Para cheirar o equipamento
? Na minha opinião seria de todo
interesse que o instituto soubesse se o equipamento estava em condições de uso. Eu estava me oferendo para fazer isso
gratuitamente, mas nem isso motivou aquela gente.
Eu estava tentando resolver um
problema que afetava diretamente o programa espacial do Brasil e ainda daria
uma utilidade para um equipamento caro que estava inutilmente guardado e que jamais
seria utilizado. Não consigo imaginar
nenhum motivo justificável para aquela atitude. Eu já havia encontrado postura idêntica (vide
postagem Equipamento Indisponível) e, ao longo da minha carreira encontrei outras,
em diferentes organizações governamentais.
Percebi então um padrão ONIOMANIA = mania de comprar e acumular objetos
sem uso prático.
Oniomania em indivíduos é um
transtorno mental similar ao acumulador compulsivo. Porém, ligado a comportamento institucional
eu não saberia definir de forma tão clara.
O que poderia levar pessoas a preferirem guardar equipamentos caríssimos
sem nenhum uso do que cedê-los a outros – as vezes da mesma instituição, mas de
departamentos diferentes ou de outros institutos de finalidades similares.
Em vez de se regozijarem por
estar dando utilidade para algo sem uso e com isso fazendo valer o dinheiro
gasto, se sentem diminuídos ? Talvez
tenham medo de serem considerados incompetentes ou irresponsáveis. Na maioria das vezes é isso mesmo. Mas seria uma oportunidade de se redimir.
A futilidade é a alma gêmea da
ignorância. A arrogância é a alma gêmea da incompetência. A vaidade é a mãe
delas. Maria
Angélica Carnevali Miquelin
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