QUEIMANDO ETAPAS
Já faz muitas décadas quando ouvi pela primeira vez a expressão “queimar etapas”. Essa expressão refere-se à prática de, visando otimizar o tempo e os recursos, pular fases importantes em um projeto, muitas vezes ignorando etapas intermediárias. Isso pode ser aplicado em diversos contextos, como na vida pessoal, carreira ou estudos.
Ao longo da minha vida
profissional, todas as vezes em que foi implementada essa prática, quem acabou
queimado foi o projeto. Na tentativa de
fazer algo mais rápido, acabava-se fazendo mal feito e, em vez de trazer
economia, trazia grande prejuízo. Ou
seja, não se economizava nem tempo (já que se tinha que fazer tudo novamente)
nem recursos.
Na postagem Concreto
Desobediente eu já abordava esse assunto.
Aquele episódio aconteceu há mais de 40 anos atrás. Depois dele muitos outros aconteceram, sempre
com o mesmo resultado. Quem saía
queimado era o projeto.
Hoje, com mais maturidade,
fico pensando o que poderia levar à necessidade de queimar etapas e se isso
seria realmente válido.
Se um projeto é bem planejado,
tanto relativo às atividades como em relação ao tempo de sua execução, qualquer
mudança nesse plano trará, necessariamente, algum tipo de prejuízo. Veja que não estou me referindo a buscar
fazer algo de alguma maneira mais eficiente do que se havia planejado
previamente. Isso seria não apenas
válido como desejável. Me refiro a
deixar de fazer algum tipo de teste ou fazê-lo “meia boca” de forma a ser mais
rápido. Se um teste foi planejado é
porque existe alguma incerteza ou necessidade de verificação. Sua não execução traz um enorme risco de
falha.
Também não estou me referindo
à contratação de terceiros, que façam o trabalho mais rápido ou até já o tenham
pronto. Nesse caso não se estaria
queimando nada e sim substituindo o executor.
A aviação comercial é um
exemplo de que não se pode queimar etapas em nada. Todos os procedimentos devem ser obedecidos à
risca. Pular alguma etapa é colocar a
vida de todos os passageiros em risco.
Os gestores dos projetos que
participei parece que não se sentiam muito responsáveis pela conclusão bem
sucedida dos mesmos. Aqueles que vi
tomarem a decisão de queimar etapas no passado, estavam mais preocupados com
outros aspectos (vide postagem Decisão Política). Vi pessoas que tomaram decisão de queimar
etapas para parecem eficientes. Outras
se justificaram estar obedecendo ordens (de quem não se responsabilizaria pelo
resultado). Tomaram decisões que
prejudicaram o desenvolvimento do projeto.
Seja por motivos burocráticos,
financeiros ou até mesmo por motivos indeclaráveis, queimar etapas jamais poderia
ser a solução. Talvez alguém poderia se basear
na famosa frase popular “os fins justificam os meios” erroneamente atribuída a
Maquiavel. Historicamente, a frase
também é relacionada a Ovídio, que escreveu: "o sucesso valida o ato". Observa-se, entretanto, que o pensamento de
Ovídio pressupõe que houve o sucesso. E
quando há o fracasso ? como fica ? Como justificar queimar etapas que acabam por
destruir o projeto ? Obra do acaso
? Não ! Ação humana irresponsável.
Uma má ação não pode ser
justificada por boas intenções. É daí
que veio o adágio popular: “de boas intenções o inferno está cheio”
Na minha carreira, jamais
queimei etapas. Percorri todas com muita determinação e persistência. Muitas vezes isso teve um preço alto tanto em
saúde como em desgaste pessoal e profissional.
Porém, jamais deixei de colher frutos na hora certa e de ter certeza de
dever cumprido.
Como disse Salomão em
Eclesiastes 3:1 “Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada
propósito debaixo do céu”
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