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NOTEBOOK

  A partir de 1991, quando concluí o doutorado, eu estava apto a solicitar financiamento para projetos de pesquisa junto ao CNPq (Conselho Nacional de Pesquisas) e à FAPESP (Fundação para Amparo à Pesquisas do estado de São Paulo). Até a minha aposentadoria, consegui diversos financiamentos dessas agências.  Todos ligados diretamente aos objetivos institucionais.  Ou seja, todo o recurso financeiro e humano (bolsistas) eram empregados para a realização dos objetivos do IAE e ficavam na própria instituição.  Jamais propus algum projeto de interesse pessoal.  Isso deveria ser elogiável mas havia quem não gostasse. Já no meu primeiro projeto aprovado pela FAPESP, comprei um notebook.  Era o primeiro equipamento desse tipo do instituto (na época era uma novidade).  Não demorou muito quando uma pessoa que havia trabalhado na minha equipe e havia sido transferida devido à sua improdutividade, procurou meu chefe com a acusação de que eu pretendia ficar com o ...

MORAL DE BANDIDO

  No final da década de 90, um aluno meu da Universidade Braz Cubas me contou um episódio lamentável.  Ele trabalhava como professor de nível médio de uma escola municipal em Mogi das Cruzes.  Em um certo dia, ao chamar a atenção de um aluno que não se comportava bem, esse aluno lhe deu um tapa na cara. Após a confusão que se sucedeu o tal adolescente foi levado para a diretoria.  A diretora também chamou o professor agredido (meu aluno) e, na frente do infrator, ela disse: “farei o que você (o professor) decidir !”  O professor então diz: “Não quero que ele seja punido apenas que peça desculpas.” O aluno presente, então, saiu com essa: “eu ?  pedir desculpas ? e como fica minha moral ?” Não sei como terminou o episódio mas esse história até hoje me causa náuseas.  Há nela uma séria de eventos absurdos.  O primeiro é o fato de um adolescente se atrever a agredir um professor.  O segundo é a atitude ridícula da diretora que, em vez fazer uso d...

PÓS DEFESA

  Finalmente chegou o dia da defesa da tese, uma segunda-feira.  No domingo à noite, Cho me ligou para, segundo ele, passar instruções para defesa de tese.  Quando ele começou a dizer como eu deveria preparar os slides (naquela época não havia power-point, era retroprojetor e slides de acetato) eu o interrompi dizendo: “Cho, falta pouco menos de 24 horas para a defesa.  Os slides já estão prontos faz uma semana.” Ele percebeu quão ridículo ele estava passando mas não perdeu a pose e começou a dizer que não queria ouvir “piadinhas” durante a defesa.  Achei aquele colocação despropositada e comentei:  “piadinhas ?  por acaso sou comediante ?  Sou um profissional e faço apresentações há muito tempo.  Sei me comportar muito bem.”  Ele arrematou dizendo que alunos ficam nervosos durante a defesa e por isso não se comportavam como deveria.  Não quis estender a conversa.  Agradeci e desliguei. No madrugada seguinte, peguei meu carro e...

PRÉ DEFESA

  Ao começar formalmente a minha orientação, Cho colocou como exigência que eu deveria publicar 2 artigos em congressos com o assunto da minha tese e assim comecei a desenvolver a mesma. Em 1986, publiquei um artigo em um workshop do IFAC (International Federation on Automatic Control) em Lund na Suécia.  Em 1987, publiquei outro trabalho em um Colóquio no México e em 1988 publiquei mais um artigo no Congresso Brasileiro de Automática.  Nesse momento, Cho me disse que já bastava e que eu deveria concluir a tese. A orientação era difícil pois eu já estava morando em São José dos Campos e não havia internet naquela época.  Então, mais ou menos mensalmente eu mandava para Cho, pelo correio, o material escrito que eu havia desenvolvido para discutirmos.  Depois de uma semana eu ia ao Rio de Janeiro, normalmente na própria casa de Cho para nossa entrevista de orientação. Capítulo após capítulo, fui mandando para Cho e discutindo seu conteúdo.  Até que finalmente...

FOGO CRUZADO

  Terminei o mestrado (1982) com muito sucesso.  Havia feito 36 créditos e mais a dissertação em 2 anos e meio, mesmo em tempo parcial.  Como no IME não havia doutorado em controle, procurei outra instituição que tivesse.  No segundo semestre de 1983 comecei a cursar os créditos para o doutoramento.   Eu já tinha definido o assunto que eu gostaria de desenvolver na tese e soube que havia um professor lá que era especialista no assunto - o professor Cho (nome fictício).  Uma das 5 matérias que cursei para cumprir os créditos era a de Cho e, como professor, não me impressionou muito.  Mas era o assunto que eu queria e o procurei para que fosse meu orientador.  Ele aceitou e combinamos de começar a orientação logo após o exame de qualificação. Segundo as regras da instituição eu deveria prestar 3 provas de matérias que dependiam da área de escolha do tema de tese.  Para cada uma das provas, a nota era aprovado ou reprovado. A primeira prova...

POTENCIAL VIRTUAL

  Em física, aprendemos o conceito de energia potencial.  Trata-se da  energia presente nos corpos dando a eles a capacidade de realizar trabalho .  Talvez, por causa disso, é comum usar a palavra potencial para descrever o conjunto de capacidades / habilidades de uma determinada pessoa. Desde o início da minha carreira profissional, eu escutei comentários à respeito de determinadas pessoas : fulano tem grande potencial.  Até aí tudo bem, era uma expectativa baseada em algum tipo de critério de avaliação (normalmente títulos).  Entretanto, com o passar do tempo, aquela pessoa dita com grande potencial, não realizava trabalho algum ou até mesmo gerava problemas (anti-trabalho).  Ainda assim, continuava sendo referido como de grande potencial. Poder-se-ia pensar que seria, talvez, mera preguiça mental.  Mas essas mesmas pessoas, demonstravam grande interesse por outras atividades que não aquelas da sua formação ou pelas quais era pago para fazer....

A COINCIDÊNCIA

  Não lembro exatamente quando foi esse episódio bizarro, mas não faz diferença.  Eu havia recebido o contato de um estudante que gostaria de conhecer nosso trabalho no IAE.  Isso sempre foi muito comum.  Estudantes e candidatos de pós-graduação, interessados em tecnologia espacial, nos procuravam buscando algum tipo de orientação ou motivação. Não lembro seu nome e vou chamá-lo de Bob.  Ele havia me enviado um e-mail (não havia mídias sociais na época) pedindo para recebê-lo e, então, marcamos um encontro.  Bob vinha de outra cidade e não tinha carro.  Então, combinamos que eu o pegaria no portão de entrada do CTA.  Ele também me avisou que viria com a namorada. No dia combinado, Bob me ligou dizendo que estava com um casaco azul e um boné vermelho.  Essa descrição era necessária pois eu nunca o havia visto antes.  Quando chegou a hora combinada, peguei meu carro e me dirigi até a portaria do CTA. Acontece que naquele exato momento come...