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GERENCIAMENTO INCOERENTE

  Antes mesmo do término do contrato com a empresa russa que produzia as plataformas de navegação do VLS, já havia uma preocupação do CTA em buscar uma alternativa nacional.   Primeiramente, houve uma tentativa de melhorar o desempenho de um equipamento estrangeiro que era normalmente importada pela Aeronáutica.   Foi contratada uma empresa privada para fazer isso.   Ele levou uma boa bolada de dinheiro em troca de 3 conjuntos de documentação (que ficaram na minha sala após minha aposentadoria). Houve também uma tentativa de desenvolvimento dentro do próprio IAE.   O CTA conseguiu recursos do próprio Comando e eu fui procurado para fazer esse desenvolvimento.   Chamei o projeto de SISNAV - SIStema de NAVegação.   Um nome bastante simplório, mas era bem objetivo.   Além do mais eu havia proposto outros nomes que não foram bem aceitos.   Era minha primeira experiência com gerente de um projeto e estava bastante animado.   O projeto começ...

NERO

  Até o meio da década de 90, enquanto ainda vigorava as determinações do Eng. Boscov, a documentação técnica do projeto VLS era algo levado muito a sério.   Havia uma enorme sala de paredes de vidro, carinhosamente chamada de aquário, onde se encontravam enormes estantes lotadas de relatórios.   Além disso, dentro do aquário, ficava uma secretária específica para cuidar da documentação do projeto – da sua formatação, controle e distribuição. Com o passar do tempo, a documentação já não tinha mais tanta prioridade e o próprio aquário passou a sediar outro projeto.   Enquanto aquela documentação já produzida e cadastrada foi transferida para uma sala, dentro do mesmo prédio.   Para mim isso era indiferente pois eu tinha, dentro da minha subdivisão, cópia de todos os relatórios emitidos pela mesma, desde o início do instituto. Em um certo dia de 2005, um dos meus subordinados me procurou com um relatório nas mãos mostrando que faltava uma página nele.   O...

GOLPE DE MESTRE

  Os direitos e privilégios que o servidor público usufrui costumam promover distorções estranhas pois acabam por estimular a iniquidade das pessoas.   Isso aconteceu no CTA ao se implementar um “direito” que os funcionários civis tinham com respeito ao deslocamento para seu local de trabalho.   Escrevo “direito” porque não sei qual o termo legal apropriado. O fato é que o CTA deveria prover meios para seus funcionários chegarem ao seu local de trabalho.   Se não fosse possível, deveria indenizar o custo do transporte público que os mesmos teriam que tomar para ir e voltar do trabalho.   O custo seria baseado na distância da moradia do servidor em relação ao seu local de trabalho.   Até aí tudo parece perfeitamente justo e normal.   Entretanto,  o local de moradia era comprovado com a apresentação do IPTU do imóvel de propriedade do servidor ou seu contrato de locação. Acontece que muitos funcionários possuíam imóveis em outras cidades – algun...

TURISMO GRATUITO

  Após a tragédia que aconteceu em Alcântara em 22 de agosto de 2003, muita coisa mudou no IAE.   O processo investigativo do acidente apontou uma série de deficiências que deveriam ser sanadas.   Uma das críticas feitas é que a Aeronáutica não priorizava a ida de seus oficiais engenheiros (formados pelo ITA) para o IAE.   Não sei se em resposta disso, apareceu um grupo de oficias engenheiros oriundos do CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) para trabalhar no IAE, por um tempo determinado. Foi nessa leva que apareceu na minha sala o Tenente Norberto (nome fictício) formado em Engenharia de Automação e Controle em uma universidade privada da região.   Como a sua área de formação era exatamente dentro do tipo de trabalho da subdivisão que eu chefiava, fiquei muito contente de ter sua colaboração. Norberto se apresentou naquela manhã e sentou-se em uma mesa de reunião redonda que havia em minha sala.   Comecei então a apresentar o trabalho que...

SABOTADOR

  A missão a ser realizada no terceiro voo do VLS era diferente dos outros 2 anteriores.   Nos Voos 01 e 02 a trajetória era praticamente plana para o norte, enquanto para o voo 03 deveria fazer uma manobra para o sul.   Essa manobra seria uma virada de em torno de 20 graus e isso não seria permitido medir com a plataforma inercial que controlava o veículo. Eu propus então uma solução que chamei de azimute virtual (foi publicado em congresso internacional).   Era uma maneira de “enganar” a plataforma inercial ao informá-la que estava saindo de -10 graus em vez de zero e com a manobra de +20 chegaria a +10 graus.   Ou seja, tudo dentro da faixa de medida do sensor.   Essa estratégia não apenas foi explicada para a gerência do projeto como foi exaustivamente ensaiada em simulação digital e hardware-in-the-loop.   Funcionava perfeitamente. Durante a campanha de lançamento (agosto de 2003) apareceu um problema na inicialização da plataforma inercial. ...

CUMPRINDO MINHA OBRIGAÇÃO

  Após a entrega contratual das plataformas inerciais, a empresa Russa que as produziu nos comunicou que não teria mais condições de fornecimento.   O motivo alegado era o desmantelamento do parque industrial que era utilizado para produzi-las.   Assim, achar um outro equipamento para o VLS era mandatório. Como responsável pelo sistema de controle, comecei a procurar em empresas europeias alguma que pudesse nos fornecer.   Uma delas era a SFIM francesa que produzia uma plataforma inercial baseada em tecnologia de fibra ótica (a plataforma russa era totalmente mecânica). Em julho de 2001 eu fui convidado para dar uma série de palestras na pós-graduação da Universidade de Glasgow, durante 2 semanas.   O representante brasileiro da SFIM, sabendo disso, agendou que eu pudesse ir até Paris durante o fim de semana entre as palestras para conhecer in loco o equipamento oferecido.   A viagem foi totalmente custeada pelo British Council / FAPESP e a ida a Paris...

Aventuras Russas – NO COVIL DA MÁFIA

Em 1999, Lapin, o então diretor da empresa que nos havia vendido as plataformas inerciais para o VLS, propôs transferência de tecnologia para esse tipo de equipamento.   Segundo ele, não exatamente o equipamento que nos fora fornecido pois era de uma tecnologia antiga.   Seria algo mais moderno para o qual não tínhamos conhecimento. Na minha estada em Moscou, Lapin propôs que eu me encontrasse com a pessoa que seria o principal líder no fornecimento da tal tecnologia.   Eu aceitei, animado com a possibilidade de acesso a alguma tecnologia de ponta ou mesmo secreta. Após o almoço, Lapin me pegou em seu carro particular e fomos para um endereço desconhecido.   Até aí, nenhuma novidade.   Era comum não comentarem nada do que estavam fazendo ou mesmo do que seria feito.   Tudo sempre foi muito misterioso no relacionamento com aquela empresa.   Naquele dia passou dos limites. Chegamos em frente de um prédio estranho.   Ao mesmo tempo que tinha o ...