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EFEITO ESPALHAMENTO

Lá pelo início da década de noventa, havia uma subdivisão equivalente à minha que era muito maior e também muito produtiva em termos de documentação.  Nela havia uma tecnologista em informática que, em um determinado momento, estava sem muito o que fazer.  Então, seu chefe, um profissional muito sério, percebendo uma necessidade real e uma possível solução, pediu-lhe que desenvolvesse um software para registrar a documentação da subdivisão. Assim, foi que a tal funcionária Lucinda (nome fictício) começou com esmero a fazer seu trabalho e logo já havia estruturado o que poderia ser a solução para o catalogação da documentação em questão.  Entretanto, durante uma reunião com os chefes de subdivisão, seu chefe reportou o que estava acontecendo ao chefe da divisão o Tenente-Coronel Pascácio (nome fictício).  Pascácio exclamou: mas que ótima ideia!  Diga a ela que em vez de fazer um software para a sua subdivisão, faça para a divisão inteira. Lucinda, inicialme...

TESTE PERFUNCTÓRIO

  Por volta de 2011, um colega de trabalho (muito competente) planejou um experimento de laboratório para validar seus estudos de doutoramento.   Tratava-se de estimular, um tipo de acionador eletro-hidráulico de uma junta flexível, com diversos tipos de frequência simultaneamente para avaliar seu comportamento.   Uma vez feito o ensaio notou-se alguns comportamentos não explicáveis pelo modelamento matemático utilizado. Lembrou-se então de que haveria, muito em breve, o que chamávamos de ensaio a quente.   Tratava-se de fazer um teste muito similar ao do laboratório com o motor foguete queimando de verdade.   Assim, incluímos nesse teste o mesmo tipo de estímulo que havíamos feito em laboratório para observar se o tal comportamento se mostraria. Uma vez realizado o teste, tivemos acesso às medidas que foram feitas durante a execução do mesmo.   Mas faltava uma coisa.   Durante o ensaio a quente havia sido feita uma filmagem com uma câmera especial...

2%

  Em 2010 houve uma tentativa do DCTA em conseguir lançar um veículo lançador que fosse um modelo de qualificação.   Mesmo que não houvesse um satélite a bordo, serviria como consolidador da tecnologia desenvolvida até então.   Para isso, foi solicitado um estudo de trajetória para tal veículo e esse estudo foi encaminhado para a minha subdivisão (de controle). Imediatamente notou-se um erro naquele estudo.  Havia sido esquecido de se incluir a deflexão de 11 graus nas tubeiras do primeiro estágio.  Isso geraria uma perda no empuxo do primeiro estágio de, aproximadamente, 2%.  Assim, a trajetória estudada tinha 2% a mais de energia o que geraria uma diferença de dezenas de quilômetros.  Ou seja, estava completamente errada. Imediatamente, liguei para a gerência de veículos e informei verbalmente o equívoco, achando que isso seria suficiente para que o estudo fosse refeito.  Qual não foi a minha surpresa que, alguns dias depois, recebi a respos...

O SISTEMA

  Um sistema é um conjunto ordenado de elementos que se encontram interligados e que interagem entre si.   O conceito é utilizado tanto para definir um conjunto de conceitos como objetos reais dotados de organização.   Aparece em diversas áreas do conhecimento e, via de regra, são reconhecidos pelos resultados que produzem.   Em nossa sociedade, entretanto, parece que o conceito de sistema passou a ser de um ente metafísico com vontade própria.   Uma espécie de divindade maligna responsável por todas as mazelas, defeitos e problemas que sofremos.   Quem nunca ouviu a frase: a culpa é do sistema !! Normalmente, quem pronuncia esse clichê não sabe a que está se referindo nem a quem (muito menos o significado).   Mas é uma desculpa universal para afastar de si qualquer responsabilidade.   Passou a ser praticamente um senso comum, que tal gênio do mal (o Sistema) deve ser responsabilizado por qualquer falha organizacional ou pessoal.   Afina...

EMBUSTE

  Até o início da década de 90, nossa tabela salarial era estabelecida pelo próprio CTA, assim como em todas as organizações semelhantes.   Em um determinado momento, o governo federal definiu um reajuste de uma certa gratificação para seu funcionalismo.   Acontece que o responsável por implementar esse reajuste não o fez segundo os percentuais devidos.   Isso gerou a grande confusão descrita na postagem GATA.   Mas o que não foi descrito é o que aconteceu pouco depois do não recebimento da gratificação correta.   Um grupo de funcionários do IAE (eu inclusive) fez uma solicitação formal, através de parte individual, para que o CTA implementasse corretamente a correção da gratificação.   Na semana seguinte, veio a resposta, também de maneira formal, assinada pelo assessor jurídico da organização.   Dizia o seguinte: solicitação negada baseada no parecer jurídico XYZ da procuradoria da fazenda. Isso, para mim, não tinha muito significado, já que...

O FURO

  Uma das primeiras realizações importantes do Projeto SIA foi testar, em voo de um foguete, um sensor desenvolvido com o apoio do projeto.   Para isso, tínhamos que preparar todo o experimento que iria a bordo.   Dentre os diversos itens que compunham esse experimento estava a bateria que garantiria a energia elétrica necessária ao ensaio durante todo o tempo de voo. Esse item, na verdade, se compõe de um conjunto de 24 células parecidas com as pilhas comuns.   Seriam intermediárias entre a pilha A (aquela antiga mais gordinha) e a AA (mais comuns nos equipamentos de som).   Esse conjunto de células deveriam estar montadas em uma estrutura rígida para resistir ao ambiente de aceleração e vibração do foguete. Escolhemos fazê-lo em uma peça de alumínio maciço que teria a forma toroidal (parecida com uma rosca doce), com diâmetro externo de 30cm e altura de 10 cm.   Era, portanto, uma peça cara.   Para portar as 24 células seria preciso fazer 24 furo...

DE VOLTA PARA O FUTURO

  Como gerente do Projeto SIA eu deveria prestar satisfações ao setor do DCTA que fazia o acompanhamento dos projetos institucionais.   Isso era feito trimestralmente através de um documento chamado FAP – folha de acompanhamento de projeto.   De fato, era um documento bem simples e assertivo.   Constava os objetivos do projeto naquele período (previamente estipulados quando da proposta do projeto) e qual o percentual de execução havia sido alcançado.   Também havia oportunidade de descrever os óbices, as dificuldades encontradas para a não realização de algum tipo de atividade. Me parecia bastante razoável esse tipo de acompanhamento.   Afinal, além das FAPs, nada impedia que os responsáveis pelo setor viessem visitar nossas instalações e ver com seus próprios olhos o progresso ou não de determinado projeto.   Também poderiam, a qualquer hora, solicitar uma apresentação mais detalhada das atividades.   Entretanto, não sei dizer o porquê, havia...