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COPO D’ÁGUA

Em novembro de 2012, eu e uma equipe, fomos visitar uma empresa de sensores especiais numa cidade chinesa chamada Chongquim.   Foi uma experiência muito marcante.   A primeira coisa que me impressionou foi o tamanho da cidade de 32 milhões de habitantes. Ficamos em um hotel 5 estrelas e já na manhã seguinte outra surpresa.   Embora o buffet de café da manhã fosse grande e diversificado, eu não conseguia ver nada que me agradasse.   Notei especialmente que não havia nenhum laticínio.   Não havia nenhum tipo de queijo, nem manteiga, nem yogurt – nada.   Então, tive um pensamento um tanto preconceituoso: será que comeram todas as vacas e não sobrou nada para fazer derivados de leite ?   Somente quando retornei ao Brasil é que fiquei sabendo (não verifiquei) que a população daquela região tem um problema enzimático que os impede de comer derivados de leite.   Por isso, não comercializam. Quando saímos do hotel para trabalhar, comecei a sentir outr...

AS BATATAS

  Em 1992, em minha primeira viagem à Rússia, fomos convidados a participar de um jantar com o vice-cônsul brasileiro em Moscou.   Era um jovem bastante empolgado com o que fazia.   Falava fluentemente russo e gostava tanto de estar lá que já havia comprado uma “datcha ” (pequeno sítio) em uma cidadezinha do interior. Foi ele que, inicialmente, nos disse: a Rússia não é um outro país, é um outro planeta.   Estava ele querendo nos alertar das profundas diferenças culturais que havia entre nós.   Foi durante esse jantar que ele nos contou esse episódio, no mínimo, pitoresco.   Perto da pequena cidade onde ele havia comprado sua datcha, havia uma grande fazenda comunitária (não havia propriedade privada até então).   Quando houve a queda do Muro de Berlin e, em sequência, o fim do regime comunista, os trabalhadores abandonaram aquela fazenda imediatamente. Acontece que, quando isso aconteceu, aquele campo já havia sido preparado com uma grande plant...

MEDALHAS

  Em março de 2012, fui designado pela AEB (Agência Espacial Brasileira) para compor uma comitiva que foi à Ucrânia para avaliar o acordo que o governo brasileiro mantinha com aquele país sobre uma empresa chamada ACS (Alcântara Ciclone Space). A viagem foi longa e cansativa.   Fizemos alguns voos internos e muitas horas de viagem de carro, enfrentando muito frio e neve.   Entretanto, um episódio me chamou muito a atenção.   No meio da jornada houve um feriado nacional de comemoração do fim da segunda guerra mundial. Nesse dia, estávamos em Kiev onde há um grande parque (um museu a céu aberto) em memória da “Grande Guerra Patriótica”.   Você se sente dentro da realidade da guerra, tal a quantidade de armamentos reais expostos (aviões, helicópteros, caminhões, tanques, canhões, foguetes , etc..) Mas o que realmente me chamou a atenção é que, fora do parque, havia um local destinado a cerimônias e, naquele momento, com certo ajuntamento de pessoas.   Me...

PhDeus

Ouvi essa expressão pela primeira vez, quando comecei a trabalhar no IAE em 1985.  Era uma referência jocosa e ao mesmo tempo censuradora ao título de PhD. PhD (Philosofiae Doctor) é o título de pós-graduação equivalente ao doutorado no Brasil.  Era utilizado em grande parte das universidades estrangeiras e remete ao tempo que todo o estudo mais rebuscado seria um ramo da filosofia.  Atualmente, vários países já deixaram essa designação e adotaram o título de Doctor of Science , sem conexão com a filosofia. Acontece que, como PhD se referia a um título no exterior, dava mais status para quem o possuía do que simplesmente Doutor em Ciências.  Mas a crítica não se referia apenas à vaidade ou ao orgulho de obter um título importante (isso seria perfeitamente compreensível).  Havia uma modificação no comportamento de quem era enviado ao exterior para fazer doutoramento. A alcunha de PhDeus se referia àqueles que, ao retornarem com o título de PhD, passavam a v...

TRINDADE PAGÃ

  Numa certa noite, no final da década de 90, eu estava em frente à Universidade Braz Cubas (onde fui professor por 8 anos) aguardando o ônibus para voltar para casa.   Também havia ali, naquele momento, dezenas de alunos que tinham o mesmo objetivo – voltar para São José dos Campos.   Tive, então, a oportunidade de ouvir a conversa de um pequeno grupo.   Estavam discutindo sobre uma notícia recente de que Bill Gates havia comprado o direito autoral de diversas obras de arte famosas.   Ouvi quando um deles perguntou: “ele já é o homem mais rico do mundo (naquela época) para quê ele quer mais dinheiro ? Naquele instante, num impulso, não pude me conter e me intrometi na conversa.   Perguntei eu: vocês não sabem ?   Todos menearam a cabeça.   Pude, então, explicar: ele não quer mais dinheiro, ele quer mais poder!   Os alunos demoraram um pouco para entender o que eu havia dito. Passei então a dar alguns exemplos de como a ambição das pess...

INJUSTO

  Logo após minha passagem de chefia da subdivisão de controle, meu substituto me procurou sobre a possibilidade de conseguir uma bolsa, pelo projeto SIA, para uma mestranda do ITA que ele havia conhecido.   Segundo ele, ela seria de grande ajuda dentro dos planos que tinha para a subdivisão. De fato, haviam bolsas de mestrado disponíveis.   Eu não conhecia a moça, que vou chamá-la de Messalina.   Não a entrevistei, mas olhei seu currículo e me pareceu muito bom.   Em especial, seu orientador no ITA era um profissional muito respeitado.   Assim, Messalina começou a trabalhar conosco. Na mesma semana de sua chegada, recebi um e-mail, de um funcionário do IAE que estava inconformado com o fato dela estar trabalhando na organização e fazia sérias advertências sobre sua presença lá.   O texto não era muito claro nas acusações mas deixava transparecer o seu caráter passional.   Chamei Messalina, lhe expus o que estava acontecendo e perguntei se se ...

OPORTUNIDADE PERDIDA

  Em 1988, eu já estava na chefia da subdivisão de controle e estávamos nos preparando para lançar o quarto protótipo do foguete SONDA IV.   Os 3 primeiros lançamentos haviam tido razoável sucesso e isso estava chamando a atenção da imprensa internacional. Foi nesse ambiente que fui chamado para uma reunião na diretoria do CTA (cuja estrutura era bem diferente da atual).   Essa reunião foi presidida por um civil que vou chamar de Tolentino.   Não o conhecia embora ele ocupasse um cargo de alta gestão dentro do centro.   A reunião era com a empresa holandesa Fokker Space.   Haviam 2 representantes da Fokker na sala.   Eu não havia recebido nenhuma informação prévia.   Então, estava numa expectativa para saber do quê se tratava.   Foi o representante da Fokker Space que tomou a palavra e foi bastante direto no que queria.   Disse ele que a Fokker havia feito uma análise de mercado e que, devido à construção da Estação Espacial Intern...