Postagens

O PROSCRITO

Quando estava para me aposentar, recebi como colaborador em minha equipe um oficial recém formado pelo ITA. Vou chamá-lo de Ulisses em homenagem à Odisséia.  Excelente engenheiro, logo se destacou pelo interesse e qualidade no trabalho. Passado o prazo regulamentar ele conseguiu um mestrado, na área espacial, em uma universidade de renome na Inglaterra, e lá foi ele.  No ano seguinte, eu estava trabalhando na Alemanha, no DLR (agência espacial alemã), quando Ulisses entrou em contato comigo.  Ele ficou sabendo que eu estava lá e propôs visitar-me. Ele e a esposa passaram um fim de semana conosco e ele me disse o motivo da visita.  Havia uma regra dentro da universidade inglesa que os alunos deveriam fazer suas dissertações (tese) de mestrado em alguma instituição externa à mesma, ainda dentro da Europa.  Isso levaria uma grande troca de informações e inovação. Então eu lhe mostrei o que era feito no DLR e o apresentei a pessoas que estariam interessadas ne...

LOUCOS E MENTIROSOS

Recentemente, durante uma reunião em uma ICT (Instituição de Ciência e Tecnologia) para discussão de uma proposta de um grande projeto de pesquisa, escutei uma frase que motivou essa postagem. A pessoa que a declarou, estava liderando a organização dessa proposta.  Durante a discussão do que podia ou não ser feito, ele me saiu com essa: “quando se pede o impossível, você acaba se cercando de 2 grupos – os loucos e os mentirosos ”.  Rimos muito e percebi que acabara de ouvir uma verdade inquietante. Vou acrescentar um personagem à essa pequena alegoria.  O proponente seria o sonhador.  Aquele que gostaria de ver algo acontecer mesmo que fosse impossível.  Então ele é rodeado de alguns que compram a sua ideia, mesmo que impossível.  Os loucos - eles estarão dispostos a despender todo esforço e diligência para realizá-la.  Esse grupo, via de regra, tem dificuldade de percepção da realidade em que estão inseridos.  Após um longo desgaste e decepçõ...

PASTA BRANCA

Recentemente, minha empresa precisava de um certo certificado emitido por um órgão público que prefiro não identificar.   O pedido é feito pela internet.   Era preciso pagar uma certa taxa para a qual foi emitido um boleto.   Até aí tudo bem quando começam os problemas.   O tal boleto só poderia ser pago através do Banco do Brasil.   Ou seja, uma empresa que não tivesse conta no Banco do Brasil só poderia pagá-lo se tirasse o dinheiro vivo do caixa e fosse em uma agência do BB para efetuar o pagamento.   Isso, em tempo de PIX não faz nenhum sentido. Como se não bastasse a dificuldade para pagamento da taxa, a entrega de documentos teria que ser presencial e em papel.   Outra coisa que não faz sentido em tempos de transferência de documentos em formato digital e assinatura também digital (inclusive pelo site oficial do governo). Quando meu sócio se dirigiu a São Paulo e foi até a tal repartição para dar entrada na documentação, a atendente conferi...

ALZHEIMER INSTITUCIONAL

  Certamente uma das doenças mais conhecidas (e temidas) da atualidade é o mal de Alzheimer.   A doença de Alzheimer é um transtorno neurodegenerativo progressivo que afeta principalmente a memória, o raciocínio e a capacidade de realizar atividades diárias. De uma forma bastante objetiva, com o tempo, a pessoa acaba por esquecer quem é.   Não lembra de onde veio, o que fez e para onde vai. Recentemente eu estava conversando com alguns profissionais à respeito de uma certa instituição de pesquisa que já fazia um bom tempo que não produzia nada de relevante.   De repente, ouvi a seguinte frase: parece que não sabem de onde vieram nem para onde vão!! Pronto, foi suficiente para meu diagnóstico:   Alzheimer Institucional .   A comparação era muito pertinente.   Assim como os pacientes portadores de Alzheimer vão paulatinamente esquecendo-se do que foram e fizeram e já não sabem o que fazer no presente, muito menos no futuro, assim são determinadas i...

QUASE

  Quando eu ainda estava na faculdade, tínhamos um pequeno sítio em uma cidade próxima ao Rio de Janeiro, chamada Itaguaí.   Nele havíamos construído uma pequena piscina que era abastecida com água de poço.   Na beira da piscina havia um pequeno lugar com água onde se poderia limpar os pés antes de entrar.   Isso porque o caminho até a piscina não era pavimentado e sim de terra. Num certo dia eu estava mergulhado na piscina, tentando avaliar quanto tempo eu poderia ficar submerso.   Quando ouvi uma gritaria do lado de fora.   Me levantei rapidamente e vi minha mãe de pé fora da piscina e meu pai fazendo seu habitual escândalo. Perguntei: o que aconteceu ?   A resposta foi imediata: sua mãe quase quebrou a cabeça !!   Olhei para minha mãe, que estava um tanto constrangida com a gritaria, e perguntei novamente: o que aconteceu mamãe ?   Ela respondeu: eu pus o pé aqui (no local próprio) para lavar meu pé e ele escorregou.   Não havia ...

MÉTRICA

  No tempo em que eu trabalhava na restinga da Marambaia, mesma época da postagem Urubu Malandro, o Coronel Asdrúbal teve outra idéia.   Após o fracasso na utilização do VANT, ele pensou em outro tipo de alvo, que seria um pequeno foguete a ser resgatado no mar.   A proposta passava pela necessidade de consultar a Marinha para realizar esse resgate. Então Asdrúbal procurou um determinado setor da Marinha para negociar essa missão de resgatar um foguete alvo.   O encontro nos foi relatado pelo próprio Asdrúbal.   Após descrever o que precisava que o barco de resgate da Marinha fizesse, ele quis se mostrar muito participativo ao oferecer bancar o combustível que o barco gastasse.   Perguntou Asdrúbal ao comandante quantos litros de combustível ele estimava que fossem ser gastos.   A resposta o pegou de surpresa: aqui gastamos por tonelada...   Essa gafe virou motivo de chacota, entre nós, por um bom tempo. Até que, recentemente, eu passei por um...

O NARIZ

  Em 1974 eu estava cursando o primeiro ano de graduação no IME.   Era período integral de estudo somado à instrução militar.   Ambos tinham a presença controlada de forma muito rígida.   Quem estourasse em faltas (que eram pouquíssimas) corria o risco de ser desligado.   Fazia bastante sentido, pois éramos pagos pra estudar e não faríamos mais do que obrigação em estar presente. Numa certa tarde, eu deveria fazer um trabalho conjunto com um colega de turma (conhecido desde o cursinho pré-vestibular) que morava próximo.   Na chegada à sua casa, cometi a besteira de passar correndo para pegar o elevador sem ver que havia uma parede de vidro na frente.   Resultado: arrebentei a cara na tal parede.   O impacto foi tão forte que o barulho chamou a atenção do porteiro. Cheguei na casa do meu amigo com o nariz sangrando pelos poros da pele, tal a hemorragia resultante.   É claro que não consegui fazer o trabalho.   A mãe dele me forneceu g...

MELANCIA

  Esse episódio me foi contado por 3 pessoas diferentes, sendo 2 deles testemunhas oculares e tem uma total similaridade com as demais postagens desse blog.   Obviamente, não vou mencionar nomes e datas verdadeiros para resguardar as pessoas e a instituição que não tem culpa dos idiotas que aparecem por lá. Em um certo centro de lançamento de foguetes em Pindorama, foi feito o lançamento de um foguete de treinamento.   Como o próprio nome indica, seu objetivo era treinar as equipes.   Entretanto, o tal foguete já estava estocado há algum tempo e no momento da comutação da energia externa para energia interna, sua bateria arreou.   Acontece que o tal lançamento também tinha um outro objetivo que era saudar o novo chefe que chegava.   Assim, foi dada a ordem de lançar assim mesmo (vide postagem Decisão Política). Evidentemente, o sistema de transponder, que permite rastrear a trajetória do foguete, não funcionou e o veículo voou às cegas até cair no mar. ...

MINTA !

  Eu já estava bastante perplexo com atitudes como aquela descrita na postagem Mentira do Bem, quando, recentemente, presenciei outra ainda pior. Eu estava em um foro de empresários para discutirmos problemas com uma determinada autarquia federal.  Havia uma discussão em painel com a presença de diversas autoridades, sendo uma delas um diretor da tal autarquia. Alguém então apresentou um problema bastante comum.  Ao se tentar buscar algum tipo de apoio financeiro governamental, enfrenta-se uma burocracia esquizofrênica que frequentemente dá um nó em si mesma.  Quero dizer com isso que, não raramente, certas exigências são conflitantes entre si e impedem que qualquer um possa continuar no processo de seu preenchimento. Para minha surpresa e espanto, após o empresário terminar sua pergunta, a resposta do tal diretor foi: Minta! O absurdo que eu estava presenciando era tão grande que fiquei sem ação e não disse nada.  Na postagem Mentira do Bem, o conselho ...

MEGALOMANIA

Em 2007 tive a oportunidade de ir ao Paquistão para participar de uma conferência.  Era primeira (e última) vez que estive por aquelas bandas e estava bastante curioso com tudo ao meu redor.  Dentro da carro que foi me pegar no aeroporto, comecei a conversar com o motorista (muito simpático por sinal) sobre como era a vida em seu país.  Em algum momento eu lhe perguntei qual era a população do Paquistão.  Ele respondeu de uma forma curiosa e disse: “xi! aqui tem muita gente.  Mais de 8 bilhões de habitantes.”  Me espantei com a resposta e pedi para ele repetir para ter certeza de ter entendido.  Então repliquei: “deve ter alguma coisa errada com essa sua conta pois o mundo inteiro não chega a 7 bilhões de habitantes (naquela época).”  Ele ficou bastante pensativo, como se estivesse surpreso com a possibilidade de estar errado.  Ele estava muito errado.  A população de lá não chegava a 170 milhões de habitantes. Esse episódio me veio à ...

CURRÍCULO

  No final da década de 80, quando ainda se contratava os funcionários como CLTistas, eu publiquei um anúncio no jornal (era assim que se oferecia emprego na época) para trabalhar na subdivisão de controle do IAE.   No anúncio, eu dizia a qualificação e experiência do profissional que estava procurando.   Especificamente, mencionei a simulação de sistemas dinâmicos.   Recebi vários currículos, como resposta.   Um deles me chamou a atenção pois descrevia exatamente a atividade que eu gostaria que o candidato viesse a executar como funcionário.   Assim, marquei uma entrevista com ele (vou chamá-lo de Pármenas).   Pármenas morava em São Paulo e veio acompanhado da namorada.   Pedi que ela esperasse do lado de fora da minha sala onde eu faria a entrevista (não queria nenhum tipo de interferência).   Comecei a entrevista elogiando seu currículo e pedi que ele descrevesse as atividades que tanto me chamaram a atenção.   Para minha surpresa...

FUNÇÃO MAÇANETA

  Ao longo da minha carreira, nunca sobrevivi apenas com meu salário de pesquisador.   Sempre foi necessário procurar alguma renda complementar.   Via de regra, essa complementação vinha através de ministrar aulas, fossem eventuais ou como contratado em alguma universidade ou ministrando algum curso específico (caso da EMBRATEL e Rede Ferroviária Federal).   Algumas vezes, entretanto, eu fui convidado para dar algum tipo de consultoria. Quando me mudei para São José dos Campos (1985), após alguns anos, comecei a ser chamado para dar algum tipo de consultoria técnica para empresas da área de defesa.   Nas primeiras vezes, a execução do trabalho era feita através da entrega de relatórios sem que eu tivesse que ir na empresa. A primeira vez que fui contratado para ir até uma grande empresa, me deixou bastante orgulhoso e cheio de expectativa.   Como seria o ambiente de uma empresa que produzia armamento de alta tecnologia? Estranhamente, o que me chamou ...

CONFEDERAÇÃO INTERGALÁTICA

Desde as épocas no IAE eu enfrentei uma situação recorrente: ter que preencher uma papelada enorme e desnecessária.   Toda vez que precisava fazer qualquer solicitação eu deveria dizer, não apenas o meu nome, mas meu endereço, data de aniversário, RG e CPF entre outras informações já disponíveis.   Sempre fiquei perplexo como a burocracia não se importa de gastar o tempo dos outros por simples falta de organização ou porque acaba se tornando um tipo de transtorno mental de precisar que alguém preencha alguma coisa. Se alguém ainda não percebeu essa realidade, observe a maioria dos caixas de supermercado.   Diante da total automação dos processos e controle de dados por computador, diante do pagamento feito por PIX e aplicativos em celular, as pobres coitadas estão sempre anotando em um bloquinho todos os pagamentos que lhe são feitos.   A burocracia não se contenta com novos métodos mas também mantém os antigos. Recentemente, tive contato com uma novidade que me ...

SELEÇÃO ÀS AVESSAS

  Em 1997, o CTA organizou um curso de gerência de projetos de alto nível.   Trouxe professores da USP para um curso de um ano que, diga-se de passagem, foi muito bom.   Tive a oportunidade de cursar a primeira turma.   O objetivo era formar as lideranças do futuro.   Entre meus colegas de turma havia diversos militares.   Um deles veio a ser o diretor do IAE. No ano seguinte, a segunda turma já estava em funcionamento quando eu precisei falar com um indivíduo que estava fazendo o tal curso.   Fui até a sala onde se realizavam as aulas e espiei pela porta para tentar identificar a pessoa com quem eu precisava falar. Tive, então, a oportunidade de observar quem era o corpo discente daquele momento.   Para minha surpresa, a maioria era constituída dos funcionários mais inúteis e refratários ao trabalho.   Aqueles que não se sabia o que fazer com eles, depois de diversas tentativas para lhes extrair algum tipo de produtividade. Naquele tem...

PRINCÍPIO DE PETER

  Organizando todo o material que tenho acumulado nesses 47 anos de profissão, me deparei com 2 pedidos de transferência que fiz do IAE para o INPE em 1991 e 1992.   Não foram aceitos e dou graças a Deus por isso.   Ele cumpriu seus propósitos ao não permitir a mudança.   Mas, isso me trouxe à mente os motivos que me levaram a essa atitude tão radical. Em 1991 estávamos vivendo uma grande reorganização institucional devido à fusão de 2 institutos: o IPD (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento) e o então IAE (Instituto de Atividades Espaciais).   Essa fusão trouxe muitos problemas ao desenvolvimento do VLS (vide postagem O Jênio).   Deve ter atrasado o  primeiro lançamento do VLS, em anos. Foi durante esse período conturbado que assumiu a chefia da divisão o major Clarisbadeu (nome fictício).   Clarisbadeu tinha uma ótima formação, inclusive com doutorado em uma famosa instituição americana.   Sua área de atuação se enquadrava perfeitamen...

OPORTUNIDADE

  Era final da década de 90 (não lembro exatamente o ano), eu estava trabalhando em minha sala quando adentrou o major Lupicínio (nome fictício).   Seria a primeira vez (e última) que ele entrava em minha sala.   Eu o conhecia fazia alguns anos pois trabalhávamos na mesma divisão. Muito educadamente, Lupicínio solicitou minha atenção pois ele precisava que eu o ajudasse dando-lhe um parecer favorável para o plano de doutoramento que pretendia submeter para as esferas superiores.   Esse doutoramento seria feito no exterior. Até aí nada demais.   Com certa frequência eu era (e ainda sou) chamado a dar algum parecer sobre propostas de desenvolvimento de algum assunto ligado à minha área de expertise.   No caso de Lupicínio, chamava a atenção o fato de que ele já estava na divisão há mais de 10 anos e só agora estaria interessado em um doutoramento.   Eu conhecia sua família pois almoçávamos no mesmo restaurante e suas filhas já eram crescidas. ...